domingo, 19 de fevereiro de 2017

PET CARTOON


Fethi Develloglu. (Turquia).

SÍLVIO ROMERO: MACHADO, ALENCAR E MACEDO


"Qual a importância dos três escritores sobre os quais falaremos hoje?
São eles os mais aptos, os que revelaram qualidades superiores, os que exerceram grande influxo sobre seus contemporâneos.
Com qual começaremos?
Com Joaquim Manuel de Macedo, o mais operoso, o mais fecundo de nossos escritores, um dos fundadores – ou talvez o fundador – do romance brasileiro, um dos criadores do nosso teatro, e um dos mestres de nossa poesia.
Durante sua longa carreira, Joaquim Manuel de Macedo dedicou-se tanto à comédia quanto à tragédia. Em que se sobressaiu?
Creio que as suas comédias, como documentos da vida brasileira, levam vantagem sobre os seus dramas.
Se o senhor pudesse recomendar uma única comédia de Joaquim Manuel de Macedo, qual seria?
A Torre em Concurso, uma crítica aos costumes interioranos, ao espírito politiqueiro de nossa população, à protérvia e à safadeza dos chefes locais e às fraudes de nossas eleições.
O senhor nos considera detentores de um “espírito politiqueiro”?
Creio que os nossos costumes eleitorais são uma das mais curiosas chagas que nos degradam. Não existe, talvez, na terra, povo que menos cure de seus interesses e necessidades. Não há povo que tenha menos senso político, menos ideia de nação e menos consciência de seus destinos… Não existe, entretanto, povo em que se fale mais de política.
Muitos autores, entre eles Macedo, são criticados por acomodarem em suas obras questões ideológicas. O que o senhor pensa disso?
Para meu uso particular, tenho para mim que um nobre, elevado e grandioso alvo social, político, filosófico ou religioso não faz nenhum [palavra suprimida; pensamos em 'mal', 'demérito'] a uma obra de arte. Se for filha de gênio, e tiver dele a marca, o sinal e o cunho, a aspiração ideal a realçará ainda mais. Creio que a preocupação humanitária nos Miseráveis e na Lenda dos Séculos, a religiosa e política na Divina Comédia, a patriótica nos Lusíadas e a filosófica no Fausto não retiram de tais obras o seu valor estético – realçam-no.
E quanto a José de Alencar? O que o senhor pode nos dizer a respeito dele?
Tendo a preocupação constante de formação de uma literatura nacional, José de Alencar preparou-se para contribuir para ela. Alencar estudou com afinco os velhos historiadores e cronistas; procurou conhecer os costumes dos selvagens, o viver dos colonos, da classe dirigente, dos escravos… Durante um curto período de vinte e cinco anos (de 1857 a 1877) Alencar produziu toda a sua obra, prodigiosa de raptos de eloquência e de fulgurações de estilo. Pode-se dizer que não ficou recanto de nosso viver histórico-social em que ele não tivesse lançado um raio de seu espírito. ['Raptos de eloquência e de fulgurações de estilo'; rapto de eloquência: parte do discurso em que o orador/escritor, profundamente emocionado e inspirado, arrebata e comove o auditório/leitor].
A excelência de Alencar como romancista não pode ser colocada em dúvida, mas o senhor o considera um bom dramaturgo?
O dramatista em Mãe e em O Jesuíta tomou posto entre os mais distintos escritores desse gênero, não já da língua portuguesa, como da literatura universal. Ali existem cenas que atingem as alturas da verdadeira emoção dramática. Aquela em que a escrava Joana, no auge do desespero, se envenena para que não se saiba que ela é a mãe de Jorge, um jovem formado em medicina, e não se lhe desfaça o casamento com Elisa, que não se quereria ligar provavelmente a um filho de escrava, é uma dessas. Aquele brado que nega resoluta e firmemente e ao mesmo tempo inconscientemente afirma: “Eu não… Eu não sou a tua mãe, não… Meu filho!…” é um rapto de perfeição artística que chega às grandes emoções.
Falemos agora de Machado de Assis. Quais as características de sua obra?
O estilo de Machado de Assis não se distingue pela variedade do vocabulário, pela força imaginativa da representação sensível, pela movimentação ou pela abundância. As suas qualidades mais eminentes são a correção gramatical, a propriedade dos termos e a doce singeleza da forma.
É possível entrever, nas primeiras obras de Machado de Assis, pertencentes à Escola Romântica, um lampejo do escritor que revolucionaria a literatura brasileira com seus livros realistas, como Dom Casmurro?
O Romantismo de Machado de Assis foi sempre, no meio da barulha imaginativa de seus velhos companheiros, muito pacato e ponderado, com uma porta aberta para a realidade e a observação; seu posterior sistema, que podemos chamar de um naturalismo de meias tintas, um psicologismo ladeado de ironias veladas e de pessimismo sossegado, tem, por sua vez, uma janela escancarada para a banda das fantasias românticas.
“Pessimismo sossegado”?
Em nosso mundo ocidental, os poucos pessimistas de verdade – os desabusados de tudo e de todos, irremediavelmente condenados a sofrer a imensa dor inapagável da desilusão, mais do que desilusão, verdadeira condenação e prisão da vida, são sempre desatinados e instáveis, como era Baudelaire, como era Edgar Allan Poe, como era em parte Flaubert, como era o próprio Schopenhauer. Não era este precisamente o caso de Machado. O seu espírito era velado, tranquilo e discreto; mas era doce e comunicativo. Não andava cheio de sombras; usava de bons mots, de trocadilhos, de calembures; ria facilmente, mas com certa reserva; sentia-se que não se entregava de todo, não abria largamente as portas da alma à curiosidade estranha; mas dava a impressão da calma, da serenidade. Era, antes, uma espécie de moralista complacente e doce, eivado de certa dose de contida ironia, que de quando em quando costumava enroupar nas vestes de um peculiar humorismo, a que dava também por vezes uns ares de pessimismo intencional.
Resumidamente…
Para tudo dizer sem mais rodeios, Machado de Assis é grande ao fazer a narrativa sóbria, elegante e lírica dos fatos que inventou ou copiou da realidade."



(De Sílvio Romero [1851-1914], um dos mais importantes críticos literários brasileiros, autor, entre outras obras, de  História da Literatura Brasileira, cinco volumes, fonte da 'entrevista' acima, produzida pela estudante Camila Nogueira e publicada no Diário do Centro do Mundo - AQUI.
Sobre Camila Nogueira, assim informa o Diário: 
"Aos 19 anos, Camila Nogueira estuda Letras na USP. Já aos 10 anos, constatou que seus maiores interesses na vida consistiam em sua família, em cerejas e em Machado de Assis. Em uma etapa posterior, adicionou à sua lista ópera italiana e artistas coreanos.").

OLD CARTOON


James Stevenson. (EUA. 1929-2017).
The New Yorker Magazine, 1992.

A GLÓRIA QUE CONSOLA


Nani.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

COMO DISSIMULAR A PERCEPÇÃO DE SUPERSALÁRIOS


MP-SP propõe manobra para evitar publicização de supersalários

Do Site Justificando

Em uma reunião realizada no começo do mês (07/02), o Conselho Superior do Ministério Público de São Paulo propôs uma medida considerada urgente para que o pagamento de verba indenizatória de seus membros seja feito em folhas separadas, como forma de “aperfeiçoar a privacidade”. A resolução foi publicada (ontem, 17) no Diário Oficial do Estado.
Em dezembro de 2016, a Agência Pública fez uma reportagem, que foi compartilhada no Justificando, expondo que “quase 80% dos membros do MP-SP recebem acima do teto constitucional: vale-livro, auxílio-moradia e supersalários somam até R$ 130 mil por mês”.  (Nota deste blog: O teto constitucional - artigo 37 da CF - gira em torno de R$ 33,7 mil, presentemente). Além disso, a reportagem apontou que a previsão do governo de São Paulo com o orçamento para a instituição neste ano é de R$ 2,3 bilhões – orçamento três vezes maior do que o previsto para a Secretaria de Cultura e o dobro do que será destinado para pastas como Agricultura, Meio Ambiente ou Habitação.   
Depois disso, a reunião aparece como uma resposta aos dados que foram apresentados em meio a outras pautas, como a violência doméstica, provimento de cargos vagos e elogios à atuação do GAECO. Estavam presentes para formulação da ata o Procurador-Geral de Justiça, Gianpaolo Poggio Smanio, o Corregedor-Geral, Paulo Afonso Garrido de Paula e alguns conselheiros. Foi de entendimento do colegiado que “todo pagamento de verbas indenizatórias seja feito em folha diferente daquela referente ao subsídio, seja qual for o valor recebido“. Nesse sentido, o Conselho justifica que a medida vem para que não haja confusões entre os pagamentos e “gere críticas maldosas daqueles que pretendem apenas denegrir o MP como Instituição“.
Vale explicitar que a verba indenizatória deve ser utilizada para reembolsar as despesas de procuradores e promotores em seus benefícios, como auxílio-alimentação, locação de imóveis e veículos, combustível, entre outros.
Outro entendimento do Conselho pede para que a medida seja considerada urgente, uma vez que a folha de pagamentos é eletrônica e não gera custos. O colegiado afirmou, em relação a folha de pagamento que “o PGJ esclareceu que o problema não está no holerite, mas no Portal da Transparência. Os pagamentos já são feitos em folhas separadas. Vamos estudar uma forma de aperfeiçoar a privacidade.”
Procurada pelo Justificando, a Assessoria de Imprensa do Ministério Público afirmou que iria enviar uma nota, mas até o fechamento desta matéria não entrou mais em contato. (...).
(Para continuar, clique AQUI).
................
Há decretos em trâmite (no Parlamento) impondo a moralização dos supersalários, subordinando-os à Constituição Federal, extinguindo certos penduricalhos (abrigados sob o 'guarda-chuva' conhecido por "verba indenizatória") e mantendo outros, desde que efetivamente cabíveis, de per si. Não se tem notícia, porém, sobre quando os decretos passarão a valer, se é que chegarão lá.
Convém lembrar que diversas outras categorias compartilham de gordas e inconstitucionais benesses, e que aqueles que ousam denunciar excrescências da espécie são tachados de inimigos dos fiscais da Lei e demais operadores do Direito. 
Enquanto isso, a Constituição... ora, ora, a Constituição!

OS VISITANTES


Bayram Kamal. (Azerbaijão).

DA SÉRIE CARTUNS INSPIRADOS NAS FUTILIDADES GLOBAIS


Pelicano.

SUPREMA IRONIA


Ronaldo.

A ERA DA PÓS-VERDADE


Pós-verdade, que bicho é esse?

Por Neil Clark

“Querem me dizer que esse gás sarín não existe?!”
(General Colin Powell, exibindo uma “prova” na ONU)
....

Os Dicionários Oxford escolheram “pós-verdade” como a palavra do ano. “Notícias falsas” e política “pós-verdade” foram declaradas culpadas pelo resultado a favor de o Reino Unido separar-se da UE, e pela vitória de Donald Trump nos EUA.

Como se a plebe analfabeta e burra caísse nas “falsas notícias” que os infelizes leem na “nova mídia” e nas mentiras da perigosíssima gangue de políticos ditos populistas que só investem nas emoções mais baixas, não em “fatos objetivos”, para angariar votos. Fenômeno terrivelmente preocupante, que ameaça diretamente a civilização ocidental como a conhecemos.

Bem, bem, perdoem-me por não segurar uma gargalhada. Porque ver o establishment assim tão preocupado com “notícias falsas”/”política pós-verdade” é a piada mais engraçada que me aparece desde que Lord Jenkins of Hillhead, imponente reitor da Universidade de Oxford, várias vezes, repetidamente, chamou seu ilustre hóspede do Sheldon, Mikhail Gorbachev, de “Mr. Brezhnev.”

O que há de tão hilário? Ora! É que as pessoas e os veículos que mais alertam contra os perigos das “falsas notícias” e da “política pós-verdade” são os maiores disseminadores repetidores de “falsas notícias” e da “política pós-verdade” que jamais houve. É como ouvir lições da boca de Al Capone sobre a imoralidade do contrabando; ou o corcunda de Notre Dame a exigir que todos se sentem com costas retas.

Não há dúvidas de que o melhor, digo, o pior exemplo de “falsas notícias”, nos últimos 25 anos ou mais, é a mentira neoconservadora belicista segundo a qual o Iraque teria armas de destruição em massa em 2002/3. E não foi mentira criada, disseminada e repetida por “blogueiros obscuros” e “nova mídia”, mas por políticos ocidentais da mais fina estirpe, de partidos “sérios”, e “especialistas” aprovados pelos altos padrões de seriedade e respeitabilidade a serviço de BBC/ITV/CNN, etc., e colunistas de jornal os mais “sérios” e “respeitáveis” dos veículos mais idem e idem.

Nunca houve absolutamente nenhuma prova de que Saddam Houssein teria armas de destruição em massa. A história nunca passou de plena e total mentira, absoluto bullshit. Pois essa notícia falsa dominou as manchetes durante meses em 2002/3 e levou a uma invasão criminosa que matou número assombroso de seres humanos. Diferente da histeria contra “notícias falsas” de hoje, a guerra do Iraque nunca foi piada. Aquela notícia falsa destruiu um país inteiro!

E… adivinhem?! Os mesmos que inventaram e repetiram sem parar e que converteram a mentira sobre armas de destruição em massa em notícia lá estão hoje, os mesmos, a deitar falação sobre “falsas notícias”!

John Hilley observou: “A BBC até meteu lá no estúdio Alastair Campbell (homem de Tony Blair, encarregado da ‘comunicação’ naqueles dias falsos da manhã à noite), para defender a palavra ‘pós-verdade’ como meio para ‘denunciar’ os ‘perigos’ das ‘falsas notícias’.”

Campbell ensinou que “Reconhecimento que a política, que sempre foi dura, entrou em nova fase, quando os políticos que mentem parecem hoje ser recompensados pelas mentiras.” (BBC2 Jeremy Vine Show, 16/11/2016).

O que diria Orwell desse Campbell, mestre em criar e disseminar notícias falsas e belicista blairista, lá sentado, dentro da BBC e recompensado por suas ideias sobre “pós-verdade” e “notícias falsas”? – pergunta Hilley.

Não tenho dúvidas de que o velho George está aos pulos na cova, em Sutton Courtenay.

E há também o príncipe da guerra & camisa branca, belicista Bernard-Henri Levy. Hoje, o Sunday Telegraph noticia na manchete: “Renomado filósofo francês: Marine Le Pen pode sair vitoriosa, porque o povo já não se interessa por saber se os políticos dizem a verdade.”

Oh, que ironia!

Porque se o povo francês realmente “já não se interessa por saber se os políticos dizem a verdade”, Henri-Levy e seus cúmplices belicistas militantes da “mudança de regime” têm muito a ver com isso.

Lembrem a guerra contra a Líbia, pela qual o “renomado filósofo francês” fez lobby sem descanso. Para vender a guerra à opinião pública ocidental, nos mentiram que Muammar Gaddafi estaria a ponto de cometer um massacre “estilo Srebrenica” em Benghazi. Media Lens anotou o que então se “noticiava”.

Mais uma vez, só “notícias plantadas” [orig. “rollocks“]. Cinco anos depois que a Líbia, como o Iraque antes dela, foi destruída por “intervencionistas” ocidentais, relatório da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Comuns informava, afinal sem mentir, que “a proposição de que Muammar Gaddafi teria ordenado o massacre de civis em Benghazi não encontra apoio em nenhuma prova hoje disponível.”

E não foi a única “informação verdadeira” que políticos ocidentais distribuíram pela mídia-empresa para a mídia e que não encontrava nem jamais encontraria qualquer apoio em “prova hoje disponível.” Em fevereiro de 2011, o secretário de Relações Exteriores William Hague insistiu que teria visto “informação” que sugeria que Gaddafi estava a caminho da Venezuela. Um “diplomata” não identificado dissera que se tratava de “informação confiável”. Só que não era. Tratava-se do mesmo tipo de notícia falsa que passa a nos ser impingido sem parar, à opinião pública, cada vez que elites ocidentais põem-se a tentar “mudança de regime”.

Em abril de 2011 a notícia em todos os veículos “sérios”, não falseadores de notícias, rezava que Gaddafi (o qual, como adiante se viu nunca fugira para Caracas), estava alimentando seus soldados com Viagra “para estimular o estupro em massa.”

“As forças de segurança de Gaddafi e outros grupos na região estão tentando semear divisões entre a população, usando violência contra mulheres e o estupro como armas de guerra. Os EUA condenamos essas práticas nos termos mais fortes” – “noticiava” a secretária de Estado Hillary Clinton, a mesma cujos apoiadores estão hoje a se lamuriar com a tal “política pós-verdade”.

Mais uma vez, nenhuma prova foi apresentada do tal Viagra distribuído por Gaddafi para “estimular” estupros. Milagre, milagre: até hoje, nunca apareceu nem vestígio de prova.

Vê-se aí um padrão bem claro. Para obter apoio das populações para suas guerras ilegais para mudança ilegal de regime, o establishment ocidental promove ativa e empenhadamente incontáveis “falsas notícias”, como se fossem notícias não falsas. Para assegurar a “credibilidade” das notícias realmente falsas, elas são publicadas em veículos indiscutivelmente “sérios” e passam a ser regularmente repetidas por quantos comentaristas intervencionistas golpistas o dinheiro consiga comprar, como a causa “indiscutível” da importância e da urgência de se agir contra o tal Estado alvo. Fontes “anônimas” são sempre citadas nessas histórias, a maioria das quais, como a Operação Apelo de Massa do MI6, são muito frequentemente plantadas pelos serviços de segurança.

Simultaneamente, uma vasta brigada de atiradores de teclado de laptops neoliberais põe-se a esbravejar que “alguma coisa tem de ser feita”; e é a mesma multidão “ética” e “indignada”, vale anotar, que acusa os políticos ditos “populistas” de ignorarem “fatos objetivos” e manipularem as emoções populares.

As notícias falsas continuam no ar por todo o tempo que dure a operação de mudança de regime. Depois que passa, todos passamos a ouvir que temos de esquecer para sempre as notícias falsas das manchetes da véspera, porque temos de concentrar todas as energias contra o próximo “novo Hitler” que brote da boca da mesma Hillary. Em 2011 foi Gaddafi; hoje são Assad e o desprezível Putin que, nos dizia sempre a mesma (ex-)Hillary: “têm de ser detidos.”

A expressão pós-verdade implica que antes, em algum momento, a política teria sido reino da mais pura verdade. Duvido que algum dia tenha sido, mas com certeza nos últimos 25 anos, graças à influência dos neoconservadores e dos “intervencionistas liberais” (?!), as mentiras cresceram muito e já tomaram conta de tudo. Lembram das mentiras sobre urânio do Niger? Sobre Saddam, “retaliador de cadáveres”?

E antes da guerra do Iraque, foi o bombardeio “humanitário” da OTAN contra a Iugoslávia, quando novamente as falsas notícias (realmente falsas!) dominavam o noticiário. O secretário de Defesa dos EUA William Cohen “informava” que “cerca de 100 mil albaneses kosovares em idade de serviço militar estão desaparecidos” (…) “podem ter sido assassinados”.

Como John Pilger não nos deixa esquecer, “Kosovo, local do genocídio que nunca existiu, é hoje um sanguinário ‘livre mercado’ de prostituição e drogas.”

Não foi a única descomunal mentira “noticiada” para vender a guerra aos cidadãos. Mas outra vez “notícias” sobre o “genocídio” e centenas de milhares de mortos eram absolutamente falsas, como se lê, até, em sentença de um tribunal da ONU em 2001.

Noticiário falso, totalmente inventado, apareceu também em grande quantidade na campanha dos neoconservadores para conseguir tornar palatáveis as sanções criminosas contra o Irã, acusado de manter um programa de armas nucleares que ninguém jamais viu – e que não existia.

Noticiário integralmente falso dominou a cobertura jornalística dos recentes eventos na Ucrânia, com uma inexistente “invasão da Ucrânia” pelos russos, sempre referida, comentada e criticada como se fosse fato!

O conflito na Síria também é quase exclusivamente objeto de “noticiário” falso, com “informes” repetidos incansavelmente como se fossem 100% comprovados. Quantas vezes o prezado leitor leu/ouviu que “Assad usou armas químicas contra o próprio povo” em Ghouta em 2013? E, isso, apesar de o único fato comprovado até hoje ser que ninguém sabe com certeza e provas quem, afinal, foi autor daquele ataque!

As mesmas pessoas – políticos, jornalistas, “especialistas”, mercenários ativos em várias áreas – que disseminaram tantas falsas notícias por tanto tempo e que ainda vivem incorporados no establishment político e nas mídia-empresas ocidentais, mesmo depois dos fracassos no Iraque e na Líbia, puseram-se agora a espernear contra “mentiras”, pela suficiente razão de que já não controlam a narrativa, como antes.

A opinião pública busca informação e notícias numa variedade muito maior de fontes. E, nas eleições, já começou a eleger candidatos populares, que os eleitores escolhem como bem entendam. Não candidatos/partidos neoconservadores liberais ou não, e sempre intervencionistas, como antes.

Em vez de admitir que esse é o resultado da prática diária, obsessiva, de um oceano de “falsas notícias” e de incansável “política de pós-verdade”, que afastou das empresas de mídia pró-establishment os eleitores (e consumidores de notícias em geral), o incansável lobby da guerra – afinal derrotado na eleição presidencial nos EUA – tem a audácia de acusar outros, pelos crimes que o próprio lobby da guerra comete sem parar há décadas.

Preocupados com “falsas notícias” e “políticas de pós-verdade” criadas e disseminadas pelos incansáveis propagandistas ocidentais pró-guerra?!

Difícil encontrar mais claro exemplo do que os psicanalistas conhecem como “projeção”.

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Fonte: Blog do cientista Rogério Cerqueira Leite - AQUI.

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(Neil Clark. Jornalista. Escritor. Blogueiro | Tradução: Vila Vudu).

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Leia sobre o mesmo assunto:

A era da pós-verdade (Gabriel Priolli): Carta Capital. Edição Especial/2016. 28 de dezembro 2016. Páginas 84-87.

2016: ‘pós-verdade’ ou “desinformação tática” – http://bit.ly/2j46rTW

Para entender a pós-verdade (Thomaz Wood Jr.): http://bit.ly/2kosAO2

Outras Palavras[http://outraspalavras.net/]: 01/12/2016.

OLD CARTUM


L F Veríssimo.
Em algum lugar do passado.


STF: UMA CURIOSA DECISÃO


A mais recente decisão inacreditável do STF

Por Pedro Breier

O STF demonstra dia após dia que o poço de empáfia no qual afunda o Judiciário brasileiro não tem fundo.
A mais recente peripécia dos “excelentíssimos” ministros é uma decisão de (anteontem) no sentido de que presos em celas superlotadas devem receber indenização do Estado.
O caso analisado pelo STF é o de um cidadão que estava em uma cela com capacidade para 12 pessoas mas que abrigava 100. O condenado tinha que dormir com a cabeça no vaso sanitário.
O STF decidiu que ele merece uma indenização de R$ 2 mil por conta disso.
A desproporção salta aos olhos: R$ 2 mil reais de indenização por ficar preso em condições sub-humanas, de fazer inveja às masmorras medievais, é uma piada de enorme mau gosto.
Três ministros foram um pouco mais sensatos e propuseram que nesses casos o preso deveria ter o seu tempo de pena abreviado.
Mas o mais esdrúxulo é que o próprio STF contribuiu enormemente para agravar o problema da superlotação dos presídios brasileiros ao autorizar a prisão após a condenação em segunda instância, em clara afronta ao princípio da presunção da inocência.
Quão surreal é autorizar o aumento do número de prisões para depois dizer que o Estado deve indenizar quem for mantido preso em celas superlotadas?
O STF representa perfeitamente o que o Judiciário brasileiro se tornou: um poder hipertrofiado, conservador e completamente sem noção.
No mundo encantado dos que têm cargo vitalício, salários nababescos e não precisam prestar contas à população – só à Globo – tudo é muito fácil.
Os eleitos pelo povo que se virem para governar.  -  (Blog O Cafezinho - Aqui).
...............
Sem comentário.

Convém registrar, porém, que certos 'críticos' julgam questionável não o fato de o STF manter inalteradas as penas dos presos ou estipular uma 'indenização', mas a preocupação da Suprema Corte relativamente às condições oferecidas a meliantes pelo Estado brasileiro, enquanto as vítimas e seus parentes são tratadas com indiferença.
(Contudo, vale a pena dizer que 'n' leitores não conseguiram se conter e deploraram mais essa).

CARTUM NÃO RECICLÁVEL


Benett.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O MAPA DA MINA


Santiago.

O DISCURSO DE RADUAN NASSAR, GANHADOR DO PRÊMIO CAMÕES 2016


"Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.

Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.

Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco.

Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas.

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.
Obrigado"





(Discurso de Raduan Nassar, escritor, ganhador do Prêmio Camões 2016, honraria concedida pelos governos de Portugal e do Brasil e um dos principais reconhecimentos da literatura em língua portuguesa. A solenidade aconteceu nesta data, no Museu Lasar Segall, em São Paulo.

Raduan, nascido em Pindorama-SP em 1935, filho de imigrantes libaneses, é autor de livros como 'Um Copo de Cólera', 'Menina a Caminho' e o clássico 'Lavoura Arcaica'. 

Fontes: CartaCapital e Jornal GGN - aqui).

ADENDO

Dicas de leitura: 

"Que coisa ridícula!
O ministro da Cultura poderia ter feito um discurso rápido e educado, dizendo que não concorda com Raduan, mas que respeita sua opinião e pronto. Parabéns pelo prêmio, obrigado e tchau.
Não, ele tentou fazer um longo discurso político repleto de ofensas ao premiado da noite!
É inacreditável!
Freire tenta ofender e humilhar Raduan Nassar de todas as maneiras. Ao final, ainda faz questão de afirmar que se trata de um “prêmio pecuniário”.
Não diz que boa parte do dinheiro, se não tudo, vem do governo  português.
E faz isso com Raduan Nassar, que doou sua fazenda à Universidade Federal de São Carlos. Que nunca quis ganhar dinheiro da literatura, tanto que abandonou a carreira após lançar dois livros e foi criar galinhas.
Freire fica tentando humilhar Nassar, dizendo que ele “não recusou o prêmio” dado pelo governo.
Ora, o prêmio tem participação do governo de Portugal e o ganhador foi escolhido não pelo governo, mas evidentemente por jurados. E foi anunciado em maio de 2016. Ou seja, é um governo que vem da gestão Dilma. (...)."
(Para continuar a leitura do post de Miguel do Rosário - e ver o vídeo -, clique AQUI).

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"Roberto Freire é duplamente intruso. Primeiro, como Ministro da Cultura de um governo ilegítimo. Segundo, como porta-voz oficial em um evento de cultura, um político tosco entrando em águas que nunca frequentou.

Certa vez, o Jornalismo Wando – perfil gozador do Twitter - mandou uma saudação a Roberto Freire: (....)."
(Para ler na íntegra a abordagem de Luis Nassif sobre o assunto, clique AQUI).

PARANOIA ENCLAUSURADA


Brum.

ESQUENTANDO OS TAMBORINS


S Salvador.

SE TUDO CORRER BEM...


Jarbas.

O PAPEL DE TRUMP

Daryl Cagle.

Trump em duzentos anos de história

Por André Araújo

Em 1817, duzentos anos atrás, o General argentino San Martin atravessou os Andes (em 19 de janeiro) para libertar o Chile do jugo espanhol. Parece que foi há milênios, mas duzentos anos é pouquíssimo tempo. Eu mesmo ja vivi mais de um terço desse período, quem passou dos cem anos atravessou metade dessa era histórica que revolucionou a humanidade; duzentos anos é pouco tempo na História.

Nesses duzentos anos o mundo mudou completamente. Há duzentos anos não existiam os países hoje conhecidos como Itália e Alemanha, o Japão estava trancado em uma letargia feudal, a África Negra era conhecida apenas como fornecedora de escravos, no Brasil Colônia o tráfico negreiro era o principal negócio da economia, os EUA eram um país inexpressivo e sem importância, a França ressurgia da Revolução apagada pela Restauração Bourbon com Luis XVIII reinando em Versailles ainda como monarca absolutista.

Donald Trump é um ponto fora da curva da normalidade, como foram Napoleão, um italiano puro que virou Imperador da França, e Hitler, um vagabundo austríaco que dormia nos bancos de jardim de Viena e chegou ao ápice do poder no maior país da Europa ocidental.

Trump é também um ponto fora da curva, não faz parte do establishment político ou empresarial, não tem cultura, refinamento, experiência ou inteligência política, vai causar muita confusão antes de ser derrubado por afronta à Constituição que ele parece desconhecer e faz questão de não respeitar.

Um dos poucos dispositivos pétreos da pequena Constituição americana diz que o Estado  não pode, em momento algum, invocar a religião como causa de atos de Governo. Trump, assessorado por sicofantas, áulicos e cortesãos, sem consultar o Departamento de Estado, emitiu decreto onde a expressão "muçulmano" é textual.

Poderia ter feito o mesmo decreto sem usar a palavra, que se refere a uma religião. Ao citá-la tornou o decreto inconstitucional; não se pode basear nada em religião em um ato oficial.
É possível que Trump, a partir dessa primeira derrota frente às instituições, não se corrija.
Se, por exemplo, der uma ordem inconstitucional aos militares, esta não será cumprida e seu governo acaba, ele terá que sair, é uma possibilidade para consertar esse engano político.

Os Estados Unidos sobreviveram em 241 anos de existência atravessando períodos turbulentos como a Guerra Civil, duas guerras mundiais, guerras regionais perigosas como a hispano americana, a da Coreia, a do Vietnã, a segunda guerra do Iraque. Presidentes medíocres como Harding, Coolidge, Carter,  uma grave crise de governança com a doença do Presidente Wilson, onde sua esposa é que regia a Presidência, a crise dos assassinatos de Lincoln e de Kennedy. Os EUA têm uma estrutura institucional sólida, que agora será posta à prova com a Presidência Trump, um extraordinário erro de escolha da sociedade e do sistema político americano, que todavia não é imune a erros e, quando erra, o erro é monumental, afetando o País e o mundo onde os EUA projetam poder. (Nota deste blog: Jimmy Carter fracassou na tentativa de resgatar os reféns retidos pelo Irã na embaixada americana no citado país e, a despeito de defender direitos humanos e condenar ditaduras mundo afora, foi carimbado como medíocre...).

Trump, todavia, existe por uma razão concreta. A globalização trouxe benefícios a uma camada social dos EUA e imensos prejuízos a outra camada, ao contrário do que pregava o Consenso de Washington, a globalização é um processo desequilibrado e pouco eficiente.
A globalização beneficiou essencialmente o mercado financeiro e as grandes corporações multinacionais e prejudicou o resto, as empresas médias e pequenas, os empregados destas, que são milhões; prejudicou os não muito brilhantes, que são a imensa maioria das populações de qualquer País; o mundo não é habitado por gênios ou estrelas profissionais.

A globalização de capitais e de mercadorias não se transformou em globalização de prosperidade, em melhoria do nível de vida de bilhões de despossuídos, trouxe benefícios desiguais para ilhas de atividades modernas, mas arruinou número maior pelo mundo.

Os EUA dos anos 50 e 60, pré-globalização, eram uma sociedade muito equilibrada, havia os muito ricos como os Rockefeller, os Mellon, os Guggenheim, os Duke, os Astor, os Harriman, os Huntington, os Vanderbilt, os Frick, os Ford, os McCormick, mas ao mesmo tempo o operário americano tinha excelente nível de vida, com casa própria, carro e a mulher em casa; a esposa não precisava trabalhar porque seu salário era suficiente para um nível de vida de classe média, um padrão de vida invejado em todo o planeta. (Nota deste blog: Num momento seguinte, a mulher mostrou que podia agir conforme entendesse: entendeu que gostaria de trabalhar e, casada ou solteira, partiu para enfrentar o desafio).

A globalização acabou com esse mundo, que durou de 1945 a 1980; hoje a lista de bilionários da Forbes tem 49 desconhecidos que administram fundos "hedge", especuladores puros que ganharam fortunas sem produzir um parafuso - o maior deles é George Soros.
Esses são os aproveitadores da globalização, um processo que desequilibrou a sociedade americana por completo, e a eleição de Trump é o resultado desse desequilíbrio.

Um exemplo: conheço um senhor que foi executivo de grande empresa industrial, fez vários cursos de aperfeiçoamento, ganhava bem, casa própria, dois carros. A empresa foi vendida para um grupo financeiro, depois retalhada e fechada, ele foi despedido, mais de 50 anos, impossível arrumar novo emprego, hoje sobrevive fritando hambúrgueres em um restaurante, a esposa que antes nunca tinha trabalhado agora é atendente em um supermercado. É o fim do "American dream"; essa faixa pega metade da população americana. Na Nova Inglaterra e Nova Iorque há outra realidade, os empregos estão nas grandes universidades e centros de pesquisa e no mercado financeiro, enorme em Boston e Nova York. Na Califórnia a base do emprego é a industria do entretenimento, do turismo, da alta tecnologia, foi beneficiada pela globalização. O sonho americano desabou foi no centrão industrial do Meio Oeste.

Trump é o resultado do fim do sonho mas não é a solução para revivê-lo.

Trump é o tumor que supurou e veio à tona; ele pode fracassar mas as causas que o elegeram continuam latentes e serão de difícil solução. O mundo abriu lugar na mesa para países antes miseráveis como China e Índia e estas populações absorveram parte da comida servida no jantar, às custas dos comensais antigos que antes jantavam sozinhos.

Trump é notavelmente despreparado para governar, (como acima registramos) emitiu um decreto executivo redigido por conselheiros sem experiência de governo e sem conhecimento jurídico, onde introduziram na linguagem a expressão "muçulmano", quando a Constituição americana veda peremptoriamente o uso de conceito de religião em qualquer ato legal. Poderia ter pedido assessoria do Departamento de Justiça ou do Departamento de Estado e não fez, preferiu usar marqueteiros para redigir a ordem executiva, abrindo o flanco para ela ser fulminada na Justiça, que Trump também se encarregou de ofender com o epíteto de "ridícula".

Além do erro formal, Trump se submete a imensos desgastes para causas menores, irrelevantes para os grandes problemas econômicos e sociais dos EUA. O muro do México e a barragem a naturais de sete países árabes são alvos sem qualquer valor estratégico real, a imigração do México está em declínio há quatro anos e os viajantes árabes com visto válido e green cards são exatamente os amigos dos EUA: para um iraquiano ter visto americano é porque passou por todas as investigações imagináveis e provavelmente prestou serviços ao Exército americano de ocupação, barrá-lo é uma humilhação e uma ingratidão indesculpável.

Artigo de capa da principal revista de poder do mundo THE ECONOMIST reverbera o desastre atual e potencial de Trump e chama a atenção para o papel do Brasil, que pode liderar uma América Latina agora hostilizada por Trump através da agressão humilhante ao México. Em artigo anterior O ESTADO NACIONAL ONDE ESTÁ? chamei a atenção para a necessidade do Brasil se projetar como potência regional, em um contexto onde THE ECONOMIST vê o rápido enfraquecimento da liderança americana em todo o mundo pelo isolacionismo de Trump, abrindo espaços para novos líderes mundiais. Resta saber se o Brasil, tendo peso geográfico, demográfico e estratégico tem vontade de ser líder de qualquer coisa; aparentemente faltam as elites para esse papel internacional.

Trump só é surpresa para quem acha que o mundo é um processo organizado e que a História tem uma lógica evolutiva estabelecida. Nenhuma dessas realidades é presente, o mundo é um caos e a História é anárquica sempre. Trumps surgiram em muitos países, governantes do acaso eleitos por um jogo aleatório como uma roleta russa.

Os talentos para alguém ser eleito não têm relação com a capacidade para governar, capacidade intelectual e emocional. Normalmente administrar entes públicos é muito diferente do que administrar negócios privados e é raro o empresário sem experiência em política que dá certo na política, uma arte bem específica e que não se confunde com gerir uma empresa.

Trump é um acidente da História, como tantos; cada país e região vai reagir de alguma forma, se é possível ver alguma utilidade em Trump será a de desarrumar um pouco a globalização financeira e comercial que está sufocando o mundo, jogar água fria nos movimentos politicamente corretos que estão infernizando o planeta, desarranjar uma sufocante burocracia que está paralisando o crescimento mundial e as liberdades individuais e empresariais: ONGS, acordos de cooperação judiciária e policial, compliances sem fim e sem lógica, a burocracia multilateral que fez o Reino Unido sair da União Europeia e atrapalha empresas e cidadãos sem incomodar minimamente traficantes, criminosos e terroristas. Trump é uma espécie de inseticida que vai colocar pânico no formigueiro até ser parado ou esgotar sua energia, um acidente histórico como tantos que a História registrou. (Fonte: aqui).