quarta-feira, 23 de maio de 2018

MIOPIA GEOPOLÍTICA: DE COMO EXPORTAR O FUROR PERSECUTÓRIO


"Enlouqueceram? Perderam a noção de País? Serão brasileiros ou marcianos?
Investigadores brasileiros pretendem AJUDAR 24 países a investigar empreiteiras brasileiras que atuaram nesses países, o que é naturalmente o passo inicial para processar e punir empreiteiras e cidadãos brasileiros nesses países.
O Ministério da Transparência e Controladoria Geral da União está “montando uma rede” para investigar corrupção de empresas brasileiras no exterior, disfarçado de “combate ao suborno” mas evidentemente que os EUA não vão permitir à CGU investigar empresas americanas, nem a Colômbia vai permitir à CGU investigar empresas colombianas, então o alvo são nossas empresas no exterior. Vamos ajudar outros países a punir brasileiros; é inacreditável.
A base legal para esse esforço é, segundo a CGU, a convenção internacional lançada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, uma entidade guarda chuva dos interesses dos países ricos e da qual o Brasil NÃO FAZ PARTE (está pedindo para entrar e está sendo BARRADO por ação diplomática dos EUA).
Com base nesse esforço, diz a notícia de 8 de maio, a CGU está negociando “acordos bilaterais” com Chile, Peru e México; com a Colômbia já está mais avançado.
 Mas o que é isso? Acordo para perseguir empresas brasileiras no exterior?
País algum do mundo ajuda outro País a processar seus nacionais, sejam cidadãos ou empresas, ao contrario, a regra é PROTEGER suas empresas, não importa o que façam.
O que ganha o Brasil ajudando outros Estados a cobrar multas e indenizações de empresas brasileiras? Qual a lógica de interesse nacional embutida nessa “AJUDA”? Vão ajudar essas empresas a serem expulsas desses países onde criaram mercado? Pois é isso que vai acontecer.
E indenizações serão cobradas dessas empresas. De onde virá o dinheiro? DO BRASIL, ORA POIS. Estamos perdendo os mercados duramente conseguidos e ajudando as nossas empresas serem expulsas dos países; em nenhum hospício se encontrará alguém tão doido.
É simplesmente impensável que um órgão do Estado brasileiro pretenda ajudar outro Estado a “ferrar” empresas nacionais; em nome de que princípio?
A Standard Oil nos seus áureos tempos de expansão, a International Telephone and Telegraph, a IBM, a The Texas Co., conhecida como TEXACO, fizeram o diabo pelo mundo, COMPRANDO presidentes, ditadores, fomentando golpes de Estado e revoluções, e sempre tiveram o APOIO INCONDICIONAL do governo dos Estados Unidos, que sempre as protegeu a ferro e fogo, patrocinando golpes de Estado para defender suas empresas, como fez no Chile quando Allende estatizou a ITT, ou no Irã quando Mossadegh nacionalizou  a Anglo Persian e por isso foi deposto e preso em agosto de 1953.
Quando Brizola estatizou a ITT no Rio Grande do Sul, lá era Cia. Telefônica Nacional, o Governo dos EUA protestou duramente e esse foi um dos estopins principais para o apoio dos EUA à deposição de Jango em 1963; está nos arquivos diplomáticos americanos.
O Governo dos EUA considera uma agressão inaceitável aos EUA qualquer ato hostil de País estrangeiro contra suas empresas: o motivo é IRRELEVANTE; a empresa é um “ativo” do País que deve ser SEMPRE protegido pelo Governo americano, assim como protege seus cidadãos no exterior.
Quando um rapazola americano quebrou uma boate em Florianópolis, completamente bêbado, um vice-consul dos EUA em São Paulo foi correndo à Florianópolis para soltar o rapaz detido por bons motivos, não era ninguém especial, era apenas um cidadão americano.
A ITT era especializada em subornar altos dignatários estrangeiros. Heinrich Himmler,  o dirigente da Gestapo, foi subornado pela ITT, que tinha grandes interesses na Alemanha, inclusive a fábrica de aviões Focke Wulff, e sua subsidiária Lorenz era a maior fabricante de equipamentos de telefonia daquele País, e continuou  a ser depois da guerra.
O Governo dos EUA nunca ficou escandalizado com as traficâncias da ITT contadas por Anthony Sampson na excelente história da International Telephone and Telegraph, ”O Estado Soberano da ITT”; empresa fundada pelo  Coronel Sosthenes Behn com más intenções, desde seu iníicio a ITT operou com subornos pelo mundo afora, a ITT só atuava fora dos EUA  mas sempre enrolada na bandeira americana, ai de quem tocasse na International Telephone and Telegraph Co., o céu desabava sobre o infeliz país que assim tentasse, o Chile que o diga.
A Standard Oil foi instrumento fundamental para a incursão americana na China no Século XIX: John Rockefeller em 1895 via a China como o maior mercado do futuro para o petróleo e distribuía gratuitamente lamparinas para que os camponeses comprassem querosene.
Já a International Telephone and Telegraph, ajudou o General Franco na Espanha contra a República, o ditador compensou a ITT, que tinha a concessão dos telefones de Barcelona, alargando sua concessão para todo o território espanhol, a IBM ajudou a Alemanha nazista, até o momento em que os EUA entraram na guerra  e disfarçadamente continuou a operar na Alemanha: a contabilidade humana dos campos de concentração era realizada por máquinas Hollerith da IBM, foi publicada abundante literatura sobre esse episódio macabro.
A Texaco fornecia combustível a crédito para as forças franquistas contra a República, durante três anos entregou óleo sem receber, fraudando a lei americana que proibia fornecer petróleo a países em conflito. Seu principal dirigente Tor Rieber também forneceu petróleo à Alemanha nazista mesmo depois dos EUA entrar na guerra contra a Alemanha. Tanto no caso da Espanha como da Alemanha o manifesto dos navios da Texaco indicava portos neutros, mas no meio do mar os capitães eram instruídos para descarregar em portos dos países em guerra. A trapaça de Rieber foi descoberta, ele perdeu o cargo, mas morreu riquíssimo em 1968 com 86 anos, a Texaco não foi incomodada e seguiu sendo uma das “sete irmãs do petróleo”, hoje faz parte do grupo Chevron e atua fortemente no Brasil.
O Império Britânico sempre usou suas empresas como instrumento de penetração geopolítica.
A Anglo Persian Oil Company, atual British Petroleum, mandava no Irã e derrubou, com a ajuda de seu governo e dos EUA, o Primeiro Ministro Mossadegh em 1953: o premier iraniano que ameaçava os interesses britânicos ao propor a nacionalização da refinaria de Abadan, a maior do mundo, acabou deposto e preso, ninguém toca ileso nos interesses anglo-americanos.
Mossadegh alegava que a Anglo Persian subornava o Xá Reza Phalevi, o que era óbvio.
A Alemanha ainda no tempo do Kaiser e depois já no governo de Hitler tinha na SIEMENS um braço da influência alemã pelo mundo. O Governo Imperial alemão usou o Deutsche Bank para criar o grande projeto geopolítico da Ferrovia Berlim Bagdah que visava confrontar o Império Britânico no Oriente Médio e trazer a Turquia para o lado da Alemanha, o que realmente aconteceu na Primeira Guerra Mundial. No projeto havia vasta compensação financeira para o Sultão de Constantinopla, Mehmed V; em Constantinopla não se mexia uma cadeira sem presentear o monarca, como é da tradição do Oriente Médio até hoje.
O Deutsche Bank foi instrumento do expansionismo alemão, assim como o City Bank foi sempre o operador financeiro do Governo americano no exterior. William Rhodes, o grande “controlador” dos acordos do FMI na América Latina, era dirigente do City, havia uma simbiose entre Rhodes, City e o FMI, todos instrumentos do Tesouro americano.
A Arábia Saudita, um Estado nascido no Século XX, é uma criação da Standard Oil Co. of California, hoje CHEVRON, atuando como braço do Governo dos EUA: a Chevron  descobriu petróleo no Reino em 1923, iniciou sua exploração e construiu as bases de portos e oleodutos para o escoamento da produção saudita, a maior do mundo. Na esteira da companhia, o Departamento de Estado reconheceu com primazia o Reino dos Saud depois da dissolução do Império Otomano e desde então esse rico Estado existe sob as abas do governo dos Estados Unidos e mesmo depois da nacionalização do petróleo é a Chevron que opera os campos mediante contratos de serviço.
Desde a Companhia das Índias Ocidentais todos os governos usam suas empresas como “instrumentos geopolíticos de penetração, influência e domínio no exterior”. Elas todas corromperam governos pelo mundo, de modos e formas, nas circunstâncias de cada região e época, empresas atuando em estreita colaboração com a diplomacia e as agências de inteligência de seus Estados para obter dupla vantagem, as empresas com o lucro e os Estados por detrás dela aumentando sua área de influência e projeção geopolítica.
Nesse contexto corrupção é um detalhe operacional: Estado algum vai perseguir suas empresas que atuam no exterior; ao contrário, sempre as defenderão, não importa o que façam porque tudo aquilo que fazem se presume que beneficia o País e o Estado.
Hoje por ironia os Estados centrais através da OCDE estão usando o hipócrita “combate à corrupção” como um nova arma de dominação e os trouxas dos países periféricos caem nesse conto do vigário, como no das armas nucleares, eles proíbem os outros fazerem o que fazem e continuam fazendo, corrupção em larga escala, como a Halliburton fez recentemente na Nigéria. A Halliburton é hoje do mesmo grupo da Brown & Root, a maior empreiteira dos EUA, pagando 180 milhões de dólares à cúpula do governo nigeriano para obter um contrato de gás de 60 bilhões de dólares; isso foi há 5 anos. Então a lenda do “compliance” é arma contra os bocós e jecas de países pobres que acreditam em duendes; a Halliburton foi punida “de leve”, multa e prisão por 18 meses de um vice-presidente, Albert Stanley, mas nem se cogitou em todas no verdadeiro patrão, o ex-Vice Presidente dos EUA, Dick Cheney.
Quando nos anos 70 a Construtora Mendes Jr. conseguiu um grande contrato de construção ferroviária no Iraque, no valor de US$1,4 bilhão, o governo brasileiro deu TODO APOIO à Mendes Jr porque achava aquele empreendimento um feito de projeção geopolítica do Brasil, além de favorecer a exportação de equipamentos brasileiros (eu mesmo fui razoável fornecedor), milhares de operários brasileiros foram trabalhar no Iraque, toda a engenharia era do Brasil, assim como pessoal de apoio de várias funções que viajou para o Iraque, desde cozinheiros a cantoras para alegrar os operários.
Na esteira desse projeto o governo do Brasil se aproximou do Iraque e quando surgiu a primeira crise do petróleo esse relacionamento foi de VITAL IMPORTÂNCIA para o Brasil: o Iraque GARANTIU o fornecimento de todo o petróleo que o Brasil precisava importar com PAGAMENTO EM MERCADORIA, já que o Brasil estava sem dólares; o Brasil trocando petróleo por automóveis, máquinas, carne de frango, aço.
Foi esse um exemplo completo de uma empresa agindo como parte da projeção geopolítica de um Estado com grande vantagem para o País. Na esteira da cruzada moralista DESTRUÍMOS nossas melhores empresas que fizeram com seus esforços a projeção geopolítica do Brasil na África, Oriente Médio e América Latina, abrindo espaços para empreiteiras asiáticas que irão nos substituir, com ENORME PERDA DE EMPREGOS E DIVISAS para o Brasil.
O campo de ação das empresas brasileiras no exterior é de INTERESSE NACIONAL do Estado brasileiro que exerce essa coordenação através EXCLUSIVAMENTE do Poder Executivo. Só o Poder Executivo tem a missão de OPERAR AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS de um País.
Não cabe a outros organismos essa tarefa, muito menos ao Ministério da Transparência (que nome infeliz) que não tem absolutamente nada que interferir em assuntos de outros Países.
Ao pretender ajudar Ministérios Públicos de outros Países a investigar empresas brasileiras o Ministério da Transparência ESTA INTERFERINDO no ambiente politico interno desse terceiro País, pode favorecer o jogo de forças antagônicas no processo  político desse terceiro País criando problemas  presentes e futuros para as relações internacionais do Brasil, além de evidentemente prejudicar empresas nacionais, o que já é por si só uma ABERRAÇÃO.
Há uma sofreguidão em certos círculos do funcionalismo em ser homenageados no exterior e essa cooperação abre espaços para esse “ambiente” de confraternização com colegas estrangeiros. Tudo isso parece natural, MAS nada tem a ver com o interesse do Estado brasileiro. Os homenageados são ELES, pessoas físicas, o Brasil enquanto País está fora dessa vaidade de dimensão minúscula, o Brasil é muito maior do que esses confetes.
A LÓGICA DO PODER
As relações internacionais e a geopolítica se exercem há milênios pela LÓGICA DO PODER e não pela  lógica da moral e da ética, que tem seu campo em outras esferas do espírito humano, não na geopolítica e nas relações entre Estados. Há uma antiquíssima lógica dos Estados, do Poder, da Política, e nesse mundo não existem causas moralistas.
Estados são entes AÉTICOS, não se movem pela ética e sim pelo interesse nacional. Um Estado representa o passado constituído pela  História, representa o presente, que é a população atual e representa o futuro, que são as gerações vindouras, o Estado deve zelar por todos esses valores acima dos indivíduos e dos momentos isolados.
Um Estado age para defender esses interesses e para tal tarefa pode entrar em guerras, exercer espionagem, sabotagem, fazer acordos públicos ou secretos, aliciar estrangeiros, não é preciso ressuscitar a história, basta ver o que ocorre hoje nas relações internacionais quando cada País procura aumentar seu espaço a custa de outro, como se fazia no Império Romano, na Idade Média, na expansão dos impérios coloniais, nas guerras mundiais, internacionais e regionais, nas revoluções e golpes de Estado. O eixo da geopolítica é o interesse nacional e mesmo a colaboração entre Estados se dá como mecanismo de superfície pata evitar prejuízos de guerras e conflitos evitáveis pela conversação, mas a cooperação não substitui o INTERESSE NACIONAL de cada Estado e nem está na frente desse interesse.
É a lógica pura do Poder e assim agem os Estados, mas o Brasil parece que perdeu completamente o rumo e a noção de Estado ao se favorecer e permitir que empresas estatais brasileiras sejam processadas nos EUA com a colaboração de brasileiros  em funções públicas agindo como colaboracionistas de um Estado estrangeiro em nome não se sabe de qual ideal. Um prejuízo aplicado a uma empresa brasileira no exterior é um prejuízo ao Brasil, ao Estado brasileiro e a toda a população brasileira que perde empregos e negócios que geram divisas.
É resultado da impressionante, jamais vista fragmentação do Estado brasileiro, onde é possível um Ministério se oferecer para apoiar a perseguição de empresas brasileiras em outros Países a titulo de bondade ou simpatia ou sabe-se lá qual princípio em jogo, porque do interesse nacional é que não é.
O Governo brasileiro, por cegueira, estupidez e desorientação, está ajudando a varrer do mapa do mundo a presença de construtoras brasileiras, um espaço duramente conquistado desde que a Mendes Jr. começou a atuar no Iraque nos anos 70, uma notável projeção dos interesses geopolíticos do Brasil pelo mundo; de lá para cá o Brasil tinha se projetado como líder de grandes projetos em mais de 30 países, inclusive nos EUA com a construção de aeroportos.
Às vezes temos a impressão de que altos funcionários do Governo brasileiro não têm ideia do que seja e para que serve um Estado Nacional. Trabalhar para governos estrangeiros e em função dos interesses desses governos é através de toda a História da humanidade um ato hostil a seu povo, é um valor negativo assim visto desde tempos imemoriais, as tribos e os clãs já tinham essa clara percepção, os próprios animais irracionais defendem seu território com risco de morte. A cooperação internacional NÃO eliminou de modo algum esse sentimento de território, de área de interesse de cada País que cabe ao Estado defender contra qualquer outro País que queira atacar ou ofender esse interesse nacional.
A cooperação internacional é um amortecedor para evitar conflitos por questões menores que podem ser resolvidas a um custo mais baixo que um conflito, MAS a diplomacia e a cooperação NÃO ELIMINARAM o sentimento nacional de pertencimento a um País e a um povo.
Os conflitos estão rebrotados por todo o planeta, derivados do exercício dessa clara noção de povo, País e Estado, cada qual com sua trajetória; a cooperação serve para algumas coisas, mas não para tudo. O BREXIT, os conflitos no Oriente Médio e na Coreia, os crescentes atritos de imigração demonstram a profundidade do sentimento nacional e como ele aflora a todo instante, colocando o mundo em alerta de novas guerras, batalhas comerciais e de espaço econômico, uma luta intensa dos Estados para manter posições e aumentá-las.
Como é possível a um País das dimensões do Brasil perseguir suas empresas no exterior, levando-as à perda de mercados, a pagar multas e indenizações, como foi feito com a PETROBRAS nos EUA, (em que) funcionários do Estado brasileiro, pagos por ele, estão servindo a quais senhores? A americanos, a chineses? Pois são eles que se beneficiam dessa “cooperação” disfarçada sob o nome de “combate à corrupção” mas que serve a múltiplos interesses como serviram a religião, a luta contra o infiel, as ideologias do Século XX.
Parece um desvio brasileiro abanar o rabo na frente de qualquer interesse estrangeiro, seja lá por que for, querer agradar estrangeiros demonstra um sentimento de inferioridade, o  chamado “sentimento vira lata” que está corroendo o caráter de alguns funcionários; antes de tudo está o INTERESSE  NACIONAL e não o interesse do Peru, da OCDE, do Departamento de Justiça, da Transparência Internacional,  para onde funcionários brasileiros correm para agradar e cooperar como se fosse um convescote de amigos. Se nós não defendermos o interesse do Brasil, quem o defenderá?
Um Pais perseguir suas próprias empresas no exterior é algo raro, o Brasil mais uma vez surpreendendo o mundo, se expondo à beira do ridículo, ajudando outros Estados a punir empresas brasileiras e delas extrair indenizações; é uma completa falta de noção de Estado."



(De André Araújo, analista geopolítico e consultor, post intitulado "Exportando inquéritos", publicado no Jornal GGN - aqui.
Ao que os doutos brasileiros admiradores de Tio Sam contrapõem: Brasil? Interesse nacional? Ora, não nos venha com essa!).

SOB O DOMÍNIO DA POLÍTICA DE PREÇOS EXORBITANTES


Thiago.

ALGO ESTRANHO NO AR...


Guabiras.

LAVA JATO: ECOS DO CASO DURÁN

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Diante do contido no post abaixo, nenhuma estranheza. O que, aliás, vem ocorrendo há tempos,  especialmente após o depoimento de Tacla Durán à CPMI da JBS, matéria tratada neste blog em dezembro de 2017 - aqui.
(A ser fidedigno o relato da coluna Radar, ressalta uma dúvida: um servidor substituto pode ter decisão desfeita pelo servidor titular no curso da substituição?).


Após atender ao direito de Tacla Durán, juíza substituta tem decisão desfeita por Moro

Do Jornal GGN

Após seguir o protocolo para processos que envolvem acordos internacionais, a juíza substituta de Sérgio Moro em Curitiba, Gabriela Hardt, teve uma de suas decisões atendendo ao direito de defesa de Rodrigo Tacla Durán em processo com a Espanha desfeita pelo magistrado.

A juíza determinou a remessa dos autos relacionados ao processo contra Durán por lavagem de dinheiro envolvendo a UTC, para dar sequência ao acordo de cooperação com a Espanha e o Ministério da Justiça.

O pedido havia partido do próprio Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI) do Ministério, que faz a intermediação da troca de documentos para o acordo.

Já ainda no início do mês, o DRCI havia solicitado a tradução dos documentos e pedido, também, que a defesa de Durán tirasse cópias do processo que tramita contra ele, o que foi autorizado pela juíza.

"Não há, em princípio, óbice algum para que a Defesa tenha acesso e possa extrair cópia do procedimento de cooperação jurídica internacional decorrente da presente ação penal e destinado à citação de Rodrigo Tacla Duran, perante as autoridades brasileiras", determinou Gabriela.

No mesmo despacho, a juíza pediu que os procuradores que trabalham no acordo traduzam para o espanhol os arquivos a serem enviados para, em seguida, remetê-los ao país.

Imediatamente após (a juíza haver atendido) ao direito de defesa de Tacla Durán e enviar os autos à Espanha, lá de Nova Iorque, o juiz Sérgio Moro desfez a decisão da juíza substituta.

De acordo com a coluna Radar, o magistrado de Curitiba teria dado uma "bronca" em Gabriela considerando sua decisão, que seguiu os protocolos para acordos internacionais, uma "lambança".

O argumento foi um simples detalhe: que quem deveria pedir a remessa dos documentos seria a defesa de Tacla Durán, e não o Ministério da Justiça.  -  (Aqui).

terça-feira, 22 de maio de 2018

NONSENSE CARTOON


Gatis Sluka. (Latvia).

DE COMO PHILIP MARLOWE VOLTOU À AÇÃO - CAPÍTULO 23

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Para ler os capítulos anteriores, clique AQUI.
Sebastião Nunes, autor da série, é natural de Bocaiuva, MG, escritor, editor, artista gráfico e poeta. É também titular de um blog no Portal Luis Nassif OnLine.


O país dos canalhas - Capítulo 23 - O rato mendigo de Brasília

Por Sebastião Nunes

Tendo recebido alta no Hospital de Base, arrumei a mala, sai e fechei a porta. Na recepção paguei a conta – exorbitante! – e caminhei até a saída.


Na rua, respirei fundo: eu estava curado dos delírios e livre para continuar meu trabalho junto à fina flor da canalha brasileira, preparando o assalto à Casa da Moeda, assunto dos primeiros capítulos desta história.
Nem tive tempo de pensar no que fazer. Ao meu lado, esparramado na calçada, um enorme rato gordo, vestido com roupas nojentas, me encarava sorrindo.
Não fosse a cara (ou o focinho), seria um mendigo comum. Vestia um casaco puído de couro, calças jeans esfarrapadas, usava sapatos furados e segurava duas sacolas grandes, uma da McDonald’s e outra que não consegui identificar.
– Uma esmola pelo amor de Deus – disse o rato.
Com essa eu não contava! Um rato mendigando! Um rato falante! Se relatasse isso nos Istates ninguém acreditaria.
Ressabiado, tirei a carteira, extraí uma nota de 20 reais – seria muito? – que estendi ao pedinte. Sua mão era branca e gorda, de modo que ele não era um mendigo brasileiro padrão: negro e esquelético. Ou negra e magérrima, no caso das mulheres.
– Está estranhando? – perguntou o rato. – Nunca viu um rato pedindo esmola, viu? Nem falando, não é? Posso contar minha história. Quer ouvir?

ALIMENTANDO O RATO
Disse que sim e levei o rato mendigo até uma lanchonete. Claro que não entramos. Não o aceitariam lá dentro, com seus molambos e seu fedor.
Comprei dois sanduíches de presunto e queijo, dois refrigerantes, e nos sentamos num banco da pracinha em frente. Enquanto comia, ele começou a contar.
Era uma longa história, estranhíssima história, que só a custo eu não interrompia.
Depois de comer, pediu um cigarro e um conhaque. Compreendi, pela pedida do conhaque, que não se tratava de um vagabundo qualquer. Era um vagabundo de grife, digamos assim. Um vagabundo com berço.
Claro que não vou repetir o que me disse, apenas resumir a história, que durou toda a tarde e ameaçou entrar pela noite.
Voltei ao Hospital e me internei de novo, internando também o rato mendigo. O que ele contou podia ser verdade, mas podia ser delírio. Melhor os médicos decidirem. De volta à tranquilidade do meu quarto, redigi o resumo que você vai ler.

A HISTÓRIA DO RATO – INÍCIO
Filho de classe média alta, criado numa cidade média, nunca se dedicou a nada, nem mesmo a estudar o básico. Terminado o ensino médio, mal sabia assinar o nome e odiava livros. Nunca aprendeu português, matemática ou o que fosse. Era o que se chama hoje analfabeto funcional, como cerca de 80% da população brasileira.
Que fazer? O pai havia sido vereador e prefeito, tinha largas influências, de modo que o empregou numa empresa de construção civil, como auxiliar-administrativo do departamento financeiro, diretamente ligado ao presidente.
Durante alguns meses trabalhou direitinho, cumprindo horários e levando a sério suas obrigações. E tão bem trabalhou que logo descobriu o caminho das pedras que o levaria a ganhar 10 ou 20 vezes o salário mensal: as propinas.
Comprou um carro de luxo e passou a exibir padrão de vida muito superior a seu relativamente modesto salário.
Não deu outra: foi demitido, só não sendo preso e processado porque, como foi dito, o pai era figurão na cidade e tinha costas largas.
– Mas todo mundo aqui recebe propina – disse ele, ao ser despedido.
– Recebe sim – concordou o presidente. – Mas ninguém deixa o rabo de fora.
No olho da rua, compreendeu enfim como é que o mundo se movia.

A HISTÓRIA DO RATO – MEIO
Como se aproximavam as eleições municipais, o pai decidiu que o melhor seria elegê-lo vereador. Difícil? Não. Com as já famosas largas influências da família até que foi fácil ganhar como o segundo mais votado.
Na metade do mandato candidatou-se a prefeito e foi eleito.
Dois anos depois, deputado estadual. Mais quatro anos, deputado federal. Na câmara, dezenas de comissões, especialmente as que cuidavam de finanças públicas.
Assíduo, seus discursos eram bombásticos e reproduzidos fartamente na mídia. Rapidamente se tornou um dos deputados mais conhecidos, assediados e paparicados.
Seu nome era frequentemente lembrado como o próximo ministro da fazenda, ou do planejamento ou da casa civil.
Modesto, ele nada dizia. Pensava na presidência da república. Por que não?

A HISTÓRIA DO RATO – FIM
Num belo fim de semana participou de uma dessas alegres festanças que tornam tão deliciosa a vida dos poderosos em Brasília: muita bebida, muito sexo, muita droga – enfim, muito de tudo, do bom e do melhor.
Foi quando aconteceu o desastre.
(Continua.  -  Fonte: Aqui).

CARTUM FURA GREVE


Iotti.

OLD CARTOON

Arcadio Esquivel. (Costa Rica).
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(Trabalho publicado neste blog em abril de 2011, sob o título 'Charge da China'. Como a economia chinesa se mantém pujante até hoje, seria o caso de classificar o desenho como "A charge que virou cartum").

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A GUERRA FRIA NO SÉCULO 21

George Grosz - Eclipse do sol - 1926)

Eis a Guerra Fria, no século 21

Por Boaventura de Sousa Santos

O bombardeio de alvos sírios onde supostamente se produzem ou armazenam armas químicas supostamente usadas pelo governo de Bashar al-Assad contra os rebeldes deixou os cidadãos do mundo confusos, num misto de perplexidade e de ceticismo. Apesar do bombardeio (imagem apropriada no caso) midiático dos meios de comunicação ocidentais, tentando convencer a opinião pública das mais recentes atrocidades do regime de Bashar Al-Assad; apesar da quase unanimidade dos comentaristas políticos de que se tratou de uma intervenção humanitária, de uma punição justa e de mais uma prova da vitalidade da “aliança ocidental”; apesar de tudo isto, os cidadãos do mundo ocidental (dos outros nem se fala), sempre que consultados, mostraram as suas dúvidas a respeito da narrativa midiática e manifestaram-se majoritariamente contra os ataques. Por quê?

As consequências

Porque os cidadãos minimamente informados têm uma memória mais apurada que os comentaristas e porque, sem serem peritos sobre as causas destes atos bélicos, são peritos no conhecimento das suas consequências, algo que escapa sempre às contas dos ditos comentaristas. Lembram-se que em 2003 a invasão do Iraque foi justificada pela existência de armas de destruição em massa, que se provou mais tarde não existirem. Lembram-se que as fotos que na altura foram mostradas eram fotomontagens para dar credibilidade à mentira. Lembram-se que, tal como agora, o ataque foi feito na véspera de chegar ao país uma comissão independente de peritos para averiguar a existência ou não de tais armas.
Lembram-se que essa mentira deixou no terreno um milhão de mortos, um país destruído e rendeu lucrativos contratos de reconstrução entregues a empresas norte-americanas (Halliburton, por exemplo) e de exploração do petróleo às empresas petrolíferas ocidentais. Lembram-se que em 2011 a mesma aliança destruiu a Líbia, tornou-a um antro de terroristas e de negociantes de tráfico de refugiados e emigrantes e rendeu o mesmo tipo de lucrativos contratos. Lembram-se que a guerra da Síria já causou 500 mil mortos, 5 milhões de refugiados e 6 milhões de pessoas deslocadas no interior do país. E sobretudo, talvez pela misteriosa astúcia da razão de que falava Hegel, lembram-se do que lhes não é dito pela mídia. Lembram-se que naquela região estão em curso dois genocídios perpetrados por terrorismo de Estado de que quase não se fala porque os Estados agressores são “nossos” aliados: o genocídio dos iemenitas pela Arábia Saudita e o dos palestinos por Israel.

Estas são as consequências mais visíveis. Mas há outras vítimas de que o cidadão comum tem uma ideia mais vaga, uma suspeita que por vezes não é mais que um mal-estar. Saliento três. A primeira vítima é o direito internacional que foi mais uma vez violado, uma vez que tais intervenções bélicas só são legítimas em caso de legítima defesa ou sob mandato do Conselho de Segurança da ONU, condições que não se verificaram. Os tratados bilaterais e multilaterais estão a ser deitados no lixo um atrás do outro, ao mesmo tempo que as guerras comerciais se acirram cada vez mais. Estamos entrando numa nova Guerra Fria com menos regras e mais mortes inocentes? Estamos a caminho de uma terceira guerra mundial? Onde estará a ONU para a evitar pela via diplomática? Pode esperar-se outra coisa de países como a Rússia, a China ou o Irã senão que se afastem ainda mais dos países ocidentais e do falso multilateralismo destes e que organizem as suas próprias alternativas de cooperação?

A segunda vítima são os direitos humanos. A hipocrisia ocidental atingiu o paroxismo: a destruição militar de países e a morte de populações inocentes tornou-se o único meio de promover os direitos humanos. Aparentemente, deixou de haver outros meios de promover os direitos humanos senão violando-os. A democracia de tipo ocidental não sabe florescer senão nas ruínas. A terceira vítima é a “guerra contra o terrorismo”. Ninguém de boa vontade pode concordar com a morte de vítimas inocentes em nome de qualquer objetivo político ou ideológico, e muito menos os países que desde há vinte anos têm dado total prioridade à guerra contra o terrorismo, os EUA e seus aliados. Sendo assim, como se pode compreender que estejam sendo financiados e armados pelas potências ocidentais grupos de rebeldes da Síria que são reconhecidamente organizações terroristas e que, tal como Bashar al-Assad, usaram no passado armas químicas contra populações inocentes? Refiro-me particularmente à frente al-Nusra, conhecida como a Al Qaeda da Síria, um grupo extremista salafista que quer implantar um Estado islâmico. Aliás, o mais fiel aliado dos EUA, a Arábia Saudita, é quem tem sido acusado mais frequentemente por instituições norte-americanas de financiar grupos extremistas e terroristas. Quais são os objetivos ocultos de uma guerra contra o terror que financia e arma terroristas?

As causas

Os cidadãos comuns têm mais dificuldades em identificar as causas porque estas se furtam ao ruído das notícias. É convencional distinguir entre causas próximas e estruturais. Entre as causas próximas, a disputa sobre o gasoduto do gás natural tem sido a mais mencionada. As grandes reservas de gás natural da região do Qatar e Irã têm dois trajetos alternativos para chegar à rica e voraz consumidora Europa: o gasoduto do Qatar através da Arábia Saudita, Jordânia, Síria e Turquia; e o gasoduto do Irã, através do Irã, Iraque e Síria. Por razões geopolíticas, os EUA favorecem o primeiro trajeto e a Rússia, o segundo. Bashar al-Assad também preferiu o segundo por favorecer apenas governos xiitas. A partir de então passou a ser um alvo a abater pelos governos ocidentais. O Major Rob Taylor, professor do US Army´s Command and General Staff College, escreveu no Armed Forces Journal de 21 de Março de 2014: “Visto através de uma lente geopolítica e econômica, o conflito na Síria não é uma guerra civil; é antes o resultado do posicionamento de vários atores internacionais no tabuleiro do xadrez geopolítico, preparando-se para a abertura do gasoduto em 2016”.

As causas estruturais são talvez mais convincentes. Como tenho defendido, estamos num momento de transição entre globalizações do capitalismo. A primeira globalização ocorreu entre 1860 e 1914 e foi dominada pela Inglaterra. A segunda ocorreu entre 1944 e 1971 e foi dominada pelos EUA. A terceira iniciou-se em 1989 está terminando agora. Foi dominada pelos EUA, mas com crescente participação multilateral da Europa e da China. Nos intervalos das globalizações, a rivalidade entre países aspirantes ao domínio aumenta e pode redundar em guerras entre eles ou entre os aliados de cada um. A rivalidade neste momento é entre o EUA, um império em declínio, e a China, um império ascendente. Segundo o estudo “Tendências globais, 2030” do insuspeito National Intelligence Council dos EUA, em 2030 “a Ásia será o motor da economia mundial como foi até 1500” e a China pode vir a tornar-se a primeira economia do mundo.

A rivalidade intensifica-se e não pode ser de enfrentamento direto porque a China é já hoje muito influente na economia interna dos EUA e um credor importante da sua dívida pública. A guerra comercial é fundamental e atinge as áreas de alta tecnologia porque quem dominar estas (a automação ou robótica) dominará a próxima globalização. Os EUA só investem em tratados que possam isolar a China.

Como a China é já demasiado forte, tem de ser enfrentada através dos seus aliados. O mais importante é a Rússia, e os acordos recentes entre os dois países preveem transações comerciais, sobretudo de petróleo, não denominadas em dólares, uma ameaça fatal para a moeda de reserva internacional. A Rússia em caso algum poderia vangloriar-se de uma vitória na Síria (uma vitória contra os extremistas terroristas, diga-se de passagem), uma vitória que esteve a ponto de obter devido ao suposto desnorte da política de Obama ao não incluir a Síria na lista das prioridades. Por isso, os EUA precisavam encontrar um pretexto para regressar à Síria e continuar a guerra por mais alguns anos, como acontece no Iraque e no Afeganistão. A Coreia do Norte é outro aliado e tem de ser hostilizado de modo a embaraçar a China. Finalmente, a China, como todos os impérios ascendentes, investe em (falsos) multilateralismos e por isso responde à guerra comercial com abertura comercial.

Mas além disso tem investido concretamente em acordos multilaterais limitados que visam criar alternativas ao domínio econômico e financeiro norte-americano. O mais importante desses acordos foi o Brics que incluía, além da China e Rússia, a Índia, a África do Sul e o Brasil. Os Brics chegaram a criar um Banco Mundial alternativo. Era preciso neutralizá-los. A Índia desinteressou-se do acordo desde que o presidente Narenda Modi chegou ao poder. O Brasil era o parceiro particularmente estratégico porque se articulava, ainda que relutantemente, com uma alternativa mais radical que emergira na América Latina por iniciativa de alguns governos progressistas, com destaque para a Venezuela de Hugo Chávez. Refiro-me à Alba, Unasur, e Celac, um conjunto de acordos político-comerciais que visavam libertar a América Latina e o Caribe da secular tutela dos EUA.

O país mais vulnerável dos Brics, talvez porque o mais democrático de todos eles, era o Brasil. A sua neutralização iniciou-se com o golpe institucional contra a presidente Dilma Rousseff e continuou com a prisão ilegal de Lula da Silva e o desmonte de todas as políticas nacionalistas empreendidas pelos governos do PT. Curiosamente, na África do Sul, Jacob Zuma, sem dúvida um líder corrupto e entusiasta dos Brics, foi substituído por Cyril Ramaphosa, um dos homens mais ricos da África (menos corrupto que Zuma?) e adepto incondicional do neoliberalismo global. A Cúpula das Américas que teve lugar em Lima, nos passados dias 13 e 14 de Abril, foi uma peça geopolítica muito importante neste contexto. A participação da Venezuela foi vetada e, segundo o El Pais (edição brasileira) de 15 de Abril, a reunião selou o fim da América bolivariana. O fortalecimento da influência dos EUA na região está bem patente no modo como foi criticada pela delegação norte-americana a crescente influência da China no continente.

Por tudo isto, a guerra na Síria é parte de um jogo geopolítico bem mais amplo e de futuro muito incerto.  -  (Fonte: Site Outras Palavras - AQUI).

....
(Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documentação 25 de Abril, e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa - todos da Universidade de Coimbra. Sua trajetória recente é marcada pela proximidade com os movimentos organizadores e participantes do Fórum Social Mundial e pela participação na coordenação de uma obra coletiva de pesquisa denominada Reinventar a Emancipação Social: Para Novos Manifestos).

NO NORTE DO CONE SUL...


- Nas eleições presidenciais da Venezuela e dos EUA, o voto é facultativo, mas nos EUA o eleitor vota indiretamente, uma vez que quem decide é o colégio eleitoral. Em ambos, a abstenção geralmente é elevada (na eleição que elegeu Bill Clinton, a abstenção chegou a 51%; na que acaba de eleger Maduro, 54% ). Os EUA têm reservas de petróleo ridículas, a Venezuela é a campeã mundial em reservas provadas: 300 bilhões de barris. A Venezuela, ciosa de sua riqueza, não aceita coligar-se à Metrópole, razão pela qual sua chapa está esquentando e paira no ar o risco de impugnação generalizada!

TEMPO OCIOSO


André Farias.

DOCUMENTANDO OS ESTADOS UNIDOS NO GOLPE DE 2016 - PARTE 2

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Para ler a Parte 1 de 'Documentando os Estados Unidos no golpe de 2016', clique AQUI.


Documentando os Estados Unidos no golpe de 2016 - Parte 2

Por Carlos Coimbra

O presente faz parte de uma série de três artigos sobre documentos secretos vazados ou documentos públicos que indicam uma presença cada vez mais forte dos Estados Unidos no cenário político brasileiro após o anúncio das reservas de petróleo na camada pré-sal pela Petrobras em 2007.

Documentos antigos e nem tão antigos, demonstram que no passado os Estados Unidos da América participaram de diversos golpes ao redor do mundo. Incluindo o apoio a ditaduras sanguinárias para manter os seus interesses geopolíticos.

O exemplo mais prático e clássico vem da abertura pública de documentos antigos da CIA e de outros departamentos dos EUA que atestam a participação do governo Lyndon Johnson no Golpe Militar de 1964. Vide aqui um exemplo (em inglês):
Acima são listados alguns telegramas entre Johnson, CIA e o embaixador estadunidense no Brasil, Lincoln Gordon. Num deles, datado de 27 de março de 1964, Gordon textualmente diz:
“Se a nossa influência deve ser usada para ajudar a evitar um grande desastre aqui - o que poderia fazer do Brasil a China dos anos 1960 - é aqui que tanto eu como todos os meus assessores seniores acreditamos que nosso apoio deve ser colocado, (…) que medidas sejam tomadas o mais rapidamente possível para se preparar para uma entrega clandestina de armas de origem não americana, a ser disponibilizada aos apoiadores de Castello Branco em São Paulo.”
(Telegrama de Lincoln Gordon, embaixador dos EUA no Brasil, à Casa Branca e à CIA, 27/03/1964)
A operação acima descrita foi denominada “Operação Brother Sam” e contou com apoio logístico e militar por parte dos EUA para que o golpe de 1964 fosse bem sucedido.
Do ponto de vista de comunicação diplomática ou mesmo secreta, os telegramas são um dos principais meio de contato entre os diversos atores que compõem um diálogo internacional.
Nos dias de hoje é correto afirmar que não é preciso esperar décadas até a abertura de documentos diplomáticos secretos. Atualmente há uma organização que se encarrega de vazar milhares de telegramas ou emails confidenciais a partir de fontes governamentais anônimas. Essa organização se chama WikiLeaks. Não é à toa que seu fundador, Julian Assange, está escondido na Embaixada do Equador em Londres, na iminência de ser preso por autoridades do mundo ocidental, sob alegações claramente falsas criadas com o único propósito de extraditá-lo para os EUA.
Assim, uma ótima medida para entender o papel dos EUA no Golpe de 2016, é juntar as peças do quebra-cabeça a partir de telegramas confidenciais.
Abaixo, a segunda parte de uma lista de documentos, incluindo os telegramas e emails acima mencionados, que podem ser acessados por qualquer pessoa e que oferecem pistas sobre o que levou os EUA a mais uma vez se intrometer criticamente no cenário político brasileiro. Este é um recorte particular de algo muito mais amplo e portanto os leitores podem investigar o problema atacando a partir de outros documentos além dos expostos abaixo.
Documento no 8: Emails confidenciais da agência privada norte-americana de inteligência global, Stratfor, indicam alto grau de prioridade pelo tema “pré-sal brasileiro” (2008-2011)
Emails vazados pelo WikiLeaks entre 2012 e 2013 da série “The Global Intelligence Files”https://wikileaks.org/the-gifiles.html
A série de emails da Stratfor, empresa norte-americana de inteligência, revelam um grande interesse de seus alto executivos pelo pré-sal brasileiro. Nos emails, os executivos ora comentam sobre a lucratividade dos blocos Tupi ou Azulão, ora fazem pequenas intervenções sobre o status da política brasileira nos anos em que os emails foram enviados. No entanto, a grande maioria dos emails corresponde à divulgação de notícias publicadas em jornais de todo o mundo, principalmente dos EUA e do Brasil, sobre o tema do pré-sal.
Há uma grande quantidade de emails trocados sobre o tema entre 2008 e 2011. Aplicando o filtro do WikiLeaks para a plataforma “Global Intelligence” são obtidos 3.210 emails, o que indica que os executivos da Stratfor certamente viram o pré-sal brasileiro como prioridade em sua rede de inteligência.
A Stratfor é considerada como uma plataforma de inteligência na área de geopolítica e sua sede é em Austin, Texas. Foi fundada em 1996 por George Friedman. Nos emails de 2008-2011 sobre o pré-sal brasileiro, destaca-se a participação de um dos principais analistas da Stratfor, Paulo Gregoire, especialista em América Latina, especialmente Brasil, Argentina, Bolívia e Venezuela. A Stratfor também trabalha na edição de material escrito, incluindo livros. Publicamente, os trabalhos sobre América Latina da Agência de Inteligência insistentemente destacam os “males do populismo de esquerda”, assemelhando-se muito ao conteúdo de blogs da direita brasileira, como “O Antagonista”. Segue o link do sítio na internet da Stratfor:
Em dezembro de 2011 ocorreu um hackeamento nos emails da empresa, que foram roubados e tornados públicos pelo WikiLeaks a partir de 2012. Um dos responsáveis pelo hackeamento, Hector Monsegur, foi condenado a 124 anos de prisão. Sua sentença foi reduzida a um ano mais serviços comunitários em 2014, quando concordou em ser informante do FBI.
O conteúdo dos emails não atestam qualquer participação decisiva da agência de inteligência no Golpe de 2016. No entanto, mostra didaticamente o quanto o pré-sal brasileiro despertou uma grande concentração de forças de agências de inteligência norte-americanas para a obtenção de qualquer informação sobre o assunto.
E de uma forma geral, os emails revelam o funcionamento interno da Stratfor: eles mostram que essa empresa fornece preciosos serviços de inteligência confidencial para grandes corporações, como a Dow Chemical Co., Lockheed Martin, Northrop Grumman, Raytheon e até mesmo agências governamentais dos Estados Unidos, como o Departamento de Segurança Interna dos EUA, os fuzileiros navais dos EUA e a Agência de Inteligência do Departamento de Defesa dos EUA. Os emails mostram como funciona a rede de informantes da Stratfor, estrutura de pagamento, técnicas de lavagem de dinheiro e métodos psicológicos.
Um dos emails mais vitais para compreender o interesse da Stratfor pelo pré-sal brasileiro foi o relatório preparado por Reva Bhalla, vice-presidente da Stratfor (e à época trabalhando como analista da CNN para a América Latina) enviado a Paulo Gregoire. O email, datado de 07 de julho de 2010, encontra-se aqui (em inglês):
O relatório de Bhalla, um anexo do email, começa introduzindo as dificuldades de exploração do pré-sal e a necessidade de que a Petrobras se alie a empresas estrangeiras para que seja bem sucedida:
"O Congresso brasileiro está atualmente trabalhando em uma série de legislações destinadas a preparar o gigante sul-americano para muito em breve se lançar na liga global dos principais produtores de energia. Embora significativos impedimentos internos permaneçam, a evolução política e econômica do Brasil nas últimas duas décadas, combinada com suas recentes descobertas de petróleo ao largo da costa do Atlântico, estão transformando o Brasil em uma história de sucesso geopolítico. (…) Embora as perspectivas econômicas do Brasil sejam aparentemente brilhantes, ele precisa primeiro superar o imenso desafio de retirar o petróleo de camadas abaixo do fundo do oceano. Os depósitos de petróleo do pré-sal estão assentados sob uma camada de sal comprimido que fica a 1,8 milhas abaixo da superfície do oceano e outras 3 milhas abaixo do fundo do mar. (…) Apesar de ser uma empresa petrolífera altamente competente, a Petrobras ainda precisará de muita tecnologia e experiência estrangeiras para explorar as reservas massivas e perfurar nas extremas profundezas dos campos do pré-sal. (…) Em suma, o Brasil não será capaz de compreender o seu potencial petrolífero por conta própria. A superação do desafio do pré-sal exigirá muitas operadoras e muito investimento (cerca de US$ 220 bilhões) apenas para fazer o projeto sair do papel entre 2010-2014.”
Em seguida, Bhalla, em sua análise, chama a atenção sobre a intenção do Governo Lula de dar o monopólio do pré-sal para a Petrobras a partir de uma empresa subsidiária 100% estatal, a “Petro-Sal”:
“Como a Petrobras obviamente terá suas mãos ocupadas na operação dos campos de pré-sal, o governo brasileiro quer garantir que a empresa não perca sua vantagem no setor de energia. Para evitar os lados negativos de um monopólio estatal, o governo quer que uma entidade estatal que não seja a Petrobras gerencie os contratos de energia e administre as receitas do petróleo. Essa é a razão por trás de um projeto de lei pedindo a criação de uma nova empresa de energia - a Petro-Sal - que seria inteiramente estatal (em oposição à Petrobras, que é 51% estatal). A Petrosal também administraria um novo sistema de contratos que permitiria ao estado implementar acordos de compartilhamento de produção que direcionariam mais petróleo para o Estado que para as companhias petrolíferas sempre que o preço do petróleo subisse.”
Bhalla está completamente a par de cada detalhe da nova legislação, incluindo a destinação de um grande percentual dos royalties para programas sociais, principalmente educação e saúde.
Trabalhando com uma cronologia das eleições de 2010, verifica-se que uma das preocupações de Reva Bhalla e Paulo Gregoire é juntar o máximo de informações sobre Serra e Dilma. Em particular, Paulo Gregoire envia um email a Bhalla (sem data, mas que claramente antecede às eleições de 2010) intitulado “Alguns pensamentos sobre Dilma” (inglês):
No email Gregoire assim se refere à nova presidente do Brasil:
“Dilma Rousseff é economista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Dilma foi ex-chefe de gabinete de Lula e ministra de energia. Rousseff é uma tecnocrata e esta é a primeira vez em que ela concorre para o executivo. No entanto, ela sempre esteve envolvida com política. Ela passou quase 3 anos na prisão, de 1970 a 1972, devido ao seu envolvimento com o movimento de esquerda chamado Comando de Libertação Nacional.”
Logo após as eleições, Bhalla quer juntar o máximo de informações possíveis sobre o provável gabinete de Dilma e as intenções de seu governo. Vide, por exemplo, a curta troca de mensagens entre Bhalla e Gregoire em 25 novembro de 2010, data em que Dilma já havia sido eleita presidenta:
No total, são cerca de 1.014 emails enviados por Bhalla entre 2010 e 2011 cujo tema principal foi Dilma Rousseff.
Durante o governo Dilma, a renúncia de Palocci como Ministro da Fazenda (que ocorreu em junho de 2011) causou um certo frenesi dentro da Stratfor para tentar entender o que estava acontecendo. Reva Bhalla questiona Gregoire sobre o que acha do assunto e expõe que está preocupada pois acha que Dilma não se preocupa com sua imagem pública (email de 7 de junho de 2011, em inglês: https://wikileaks.org/gifiles/docs/19/1979916_re-latam-thoughts-on-palocci-resignation-.html). Ali Bhalla diz textualmente:
“A maneira como tudo isso foi resolvido [a renúncia de Palocci] foi bastante constrangedora para Dilma. (…) Ela tem trabalhado nas questões difíceis sem se preocupar com sua imagem pública. Mas isso tem um preço.”
Documento no 9: O fator Hillary-Shannon (2009-2013)
Emails vazados pelo WikiLeaks em 2016, que contêm 30 mil emails trocados por Hillary Clinton durante a época em que ela foi Secretária de Estado:

Emails de Hillary Clinton oficialmente liberados pelo Departamento de Estado dos EUA:
No início de sua atuação como Secretária de Estado, Hillary Clinton praticamente fez uma "dobradinha" com seu Secretário Assistente Thomas Shannon no bem-sucedido afastamento de Manuel Zelaya da Presidência de Honduras. Não porque necessariamente promoveram o golpe de estado, mas porque, diante do protesto da maioria dos membros das Nações Unidas, os EUA simplesmente trabalharam nos bastidores para que Zelaya permanecesse longe de Honduras, exilado na Costa Rica. Esse será o principal exemplo das linhas abaixo, a partir da documentação obtida dos vazamentos dos famosos "Clinton Emails", emails trocados entre Hillary e sua equipe na época em que fora Secretária de Estado. Os emails indicam claramente que há uma enorme diferença entre o discurso público de Hillary e Shannon e sua atuação nos bastidores.
Sempre é bom lembrar que Thomas Shannon foi o indicado de Hillary e Obama para assumir a Embaixada dos EUA no Brasil no período 2010-2013 (vide a Parte 1 deste artigo). O período que compreende 2010 e 2013 é vital para entender o Golpe de 2016, pois coincide com o primeiro mandato de Dilma, com as "Marchas de Junho", com as escutas da NSA e com o alvorecer da Operação Lava Jato.
Antes do Golpe de 2016, dois golpes semelhantes ocorreram na América Latina: a retirada repentina de Manuel Zelaya da presidência em Honduras e o impeachment de Fernando Lugo no Paraguai. Em ambos os casos, os presidentes em questão estavam alinhados com o programa geral da esquerda latino-americana, à época liderada por Lula no Brasil e Hugo Chavez na Venezuela. Entender como os EUA atuaram nestes dois casos é entender o pensamento e atuação dos EUA frente aos golpes parlamentares modernos, com todo o seu requinte de “legalidade”.
A atuação de Hillary Clinton e Thomas Shannon no caso Honduras está bem documentada, o que permite usar esse caso como um ótimo exemplo.
Manuel Zelaya foi presidente de Honduras entre janeiro de 2006 e 28 de junho de 2009, quando sofreu o golpe de estado. Zelaya, fortemente apoiado pela população e cujo governo tinha uma clara tez esquerdista, tentou reunir uma assembleia constituinte a partir de um referendo. A Suprema Corte do país declarou o referendo ilegal. Na manhã da data do referendo, 28 de junho de 2009, 100 soldados invadiram a casa de Zelaya e o colocaram em um avião para a Costa Rica. No mesmo dia, o congresso nacional votou para remover o presidente com base em uma carta de renúncia (forjada, segundo Zelaya) e o Presidente do Congresso, Roberto Micheletti, assumiu como interino. O golpe foi apoiado pela Suprema Corte e pelos militares hondurenhos.
Nenhum governo do mundo apoiou o golpe acima relatado. Oficialmente, os Estados Unidos se juntaram ao resto do hemisfério e fez monções públicas de repúdio ao golpe. No entanto Zelaya, que havia se aproximado da Venezuela mais do que os EUA gostariam, não era exatamente uma pessoa muito bem vista nos anais do Departamento de Estado norte-americano.
Após o golpe, Zelaya ainda era visto como presidente de facto pela grande maioria das Nações da ONU, que tentavam encontrar denominadores comuns para a volta de Zelaya ao seu país de origem. O inusitado é que nos bastidores os Estados Unidos estavam minando fortemente qualquer passo na direção do retorno de Zelaya a Honduras. E nesse sentido, Hillary Clinton foi a peça-chave na construção de uma nova eleição em Honduras, sem a participação de Zelaya. Em novembro daquele ano Pepe Lobo venceu o pleito e foi imediatamente reconhecido pelos EUA como presidente. Hillary chegou a fazer uma viagem ao Brasil e pediu a várias figuras políticas que reconhecessem Pepe Lobo para acalmar a turbulência na América Latina. Lula e Celso Amorim, assim como muitos dignatários de países da América do Sul, se negaram a reconhecer a legitimidade do pleito, já que Zelaya, o presidente legítimo, estava terminantemente proibido de pisar em solo hondurenho. (Vale ressaltar o episódio ocorrido em setembro de 2009, antes do pleito acima mencionado, quando Zelaya voltou escondido a Honduras e foi acolhido na Embaixada Brasileira por várias semanas, gerando um mal-estar entre o Brasil e o governo golpista de Micheletti.)
Vários emails de Clinton mostram como, começando logo após o golpe, Hillary e sua equipe mudaram as deliberações sobre Honduras na Organização dos Estados Americanos (OEA) - onde Zelaya poderia se beneficiar do forte apoio de aliados de esquerda em toda a região. Nesse caso, representantes do regime golpista foram colocados em pé de igualdade com representantes do governo constitucional de Zelaya, e o presidente da Costa Rica, Oscar Arias (um aliado próximo dos EUA) como mediador. Sem surpresa, o processo de negociação só teve sucesso em uma coisa: manter Zelaya fora do cargo pelo resto de seu mandato constitucional.
Na época do golpe, Thomas Shannon ainda era Secretário Assistente de Hillary, atuando como representante para o Hemisfério Ocidental. Pouco mais de uma semana depois do golpe, Shannon enviou um email para Clinton, por meio de sua assessora Huma Abedin, com notas de fundo para um telefonema de 6 de julho para o então presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. Nele ele discute um plano crescente para contornar a OEA - onde muitos governos estavam ficando cada vez mais impacientes com o fato de os Estados Unidos quererem reforçar o regime golpista. O email completo pode ser lido aqui (em inglês):
Abaixo, a reprodução de um trecho importante que revela claramente os planos de Hillary Clinton, Shannon e a equipe do Departamento de Estado dos EUA:
“[A Secretária de Estado Clinton] deve estar ciente de que Arias está preparado para oferecer seus serviços. Falei com o ministro das Relações Exteriores da Costa Rica, que disse que o governo de fato entrou em contato com Arias e que os costarriquenhos estarão procurando uma maneira de fazer a oferta a Zelaya. Uribe conhece Zelaya e tem alguma influência. Uribe pode querer conversar com Arias e se oferecer para ajudar a colocar Zelaya na direção certa. (Embora Uribe e Zelaya provenham de diferentes extremos do espectro político, eles são fazendeiros e amam cavalos, e isso criou certa camaradagem.)”
Os “Clinton Emails” vazaram após 2013, deixando Hillary numa saia justa. Em abril de 2016 (época do impeachment de Dilma) Hillary deu uma entrevista ao New York Daily News. Foi perguntada sobre seu envolvimento com o golpe de Honduras. Hillary simplesmente respondeu que o judiciário de Honduras "seguiu a lei". Textualmente ela disse que:
"A legislação, a legislação nacional de Honduras e o judiciário nacional na verdade seguiram a lei quando removeram o Presidente Zelaya. Eu não gostei nem da aparência e nem da forma como isso ocorreu, mas eles tinham um argumento muito forte e seguiram a constituição e precedentes legais."
Perceba que o lema do "seguiram a constituição" é usado como panaceia tanto pelo alto escalão estadunidense quanto é reproduzido de forma subserviente pela elite hondurenha e logicamente a brasileira.
Hillary ainda alegou que na época do golpe contra Zelaya ela não quis chamar o ocorrido de "golpe de estado" pois isso inevitavelmente obrigaria os EUA a cancelarem todas as "ações humanitárias" em solo hondurenho. Vide a entrevista completa aqui (em inglês):
Documento no 10: NSA faz monitoramento das atividades de Dilma Rousseff e Petrobras (2013)
Documento principal: Extrato de telefonemas interceptados pela NSA e vazado por Edward Snowden
Edward Snowden é um ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) e ex-funcionário da CIA; em ambos os casos trabalhou como analista ou administrador de sistemas. Em particular, trabalhava como terceirizado na NSA e foi responsável por um treinamento de proteção contra o ataque de hackers chineses, além de receber treinamento sobre o sistema PRISM, de vigilância global a partir dos servidores do Google e Facebook. A partir de dezembro de 2012, Snowden não se sentia mais confortável ante as atividades da NSA e contatou secretamente o jornalista do The Guardian, Glenn Greenwald, para revelar tudo o que sabia. Em maio de 2013, Snowden saiu clandestinamente da NSA com objetivo de entregar arquivos secretos que revelariam o maior esquema de espionagem global já feito.
A NSA, segundo sua auto-descrição, é responsável pelo monitoramento de atividades terroristas, pelo criptografia de mensagens confidenciais e tudo isso “segundo a constituição dos EUA”, com “honestidade” e “ética”, para alegadamente proteger EUA e seus aliados de ameaças. A NSA também alega que “não faz monitoramentos por motivos econômicos”. Vide o site da própria NSA aqui:
Em junho de 2013, Snowden, foragido dos Estados Unidos, marcou um encontro no Hotel Mira, em Hong Kong, com Glenn Greenwald e a cineasta Laura Poitras, para contar sobre as principais atividades da NSA naquele momento: monitoramento em massa, com propósitos duvidosos, de ligações de telefonia celular e da internet de pessoas comuns e também de pessoas poderosas. Para provar suas acusações, Snowden entregou uma série de documentos oficiais e confidenciais da NSA. A entrevista saiu em uma edição especial do jornal britânico The Guardian e pode ser vista aqui (em inglês):
Uma matéria contendo os desdobramentos dos documentos secretos da NSA repassados por Snowden pode ser vista aqui:
Desde então, Snowden tem sido alvo de buscas e desentendimentos diplomáticos. Foi formalmente acusado de espionagem pelos EUA. Buscou asilo em diversos países e o encontrou na Rússia. Por causa disso, Barack Obama cancelou uma viagem a Moscou em protesto. Tensões com diversos países também ocorreram: o avião do presidente boliviano, Evo Morales, foi forçado a descer em Viena, em meio a suspeitas de que Snowden estava sendo “contrabandeado” para fora da Rússia. E quando estourou a informação de que Dilma Rousseff e Angela Merkel foram espionadas pela NSA, ocorreram cancelamentos de visitas e tensões dentro da ONU.
A própria NSA admite que Snowden vazou mais de 200 mil documentos secretos:
Entre as muitas revelações de Snowden, duas se destacam por conter um papel vital para o Brasil: a Petrobras foi alvo de operações secretas da NSA e Dilma Rousseff e sua equipe tiveram seus telefonemas grampeados pela agência norte-americana.
Os documentos de Snowden sobre o Brasil vieram à tona em julho de 2013. Nos mapas da NSA, o Brasil aparece como o país mais vigiado da América Latina. A Petrobras aparece em documentos ultrassecretos do tipo five-eye (compartilhados entre a NSA, o Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Canadá). Basicamente contém a discussão sobre técnicas de interesse dos Estados Unidos sobre perfuração de poços em alto mar e outras tecnologias a serem usadas para beneficiar a competitividade das empresas norte-americanas e dos países aliados acima listados. Esse é um tipo de monitoramento que coloca por terra a alegação da própria NSA que não faz esse tipo de atividade por motivos econômicos.
As principais informações sobre espionagem industrial da Petrobras pela NSA e a interceptação de ligações telefônicas de Dilma Rousseff podem ser acessadas via reportagem do Intercept escrita por Glenn Greenwald, que contém documentação anexada (em inglês):
Ou no próprio WikiLeaks, via a página intitulada “Bugging Brazil”:
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(Carlos H. Coimbra-Araújo é professor e pesquisador da Universidade Federal do Paraná na área de física e aproveitamento de energia. Autor, entre outros, do artigo “Energy-Environmental Implications Of Shale Gas Exploration In Paraná Hydrological Basin, Brazil” [Renewable and Sustainable Energy Reviews], publicado pela Editora Elsevier).

Fonte: AQUI.