quarta-feira, 28 de setembro de 2016

JURISTA JUAREZ TAVARES SERÁ OBSERVADOR NO PLEBISCITO DO ACORDO COLÔMBIA FARC


Acordo de paz Colômbia/Farc: jurista Juarez Tavares honra Direito brasileiro

Do Jornal GGN

O acordo de paz entre o governo da Colômbia e as Farc, depois de 52 anos de conflito, vai ter um brasileiro entre os observadores no plebiscito que vai referendar o ato, . O professor titular da Universidade do Rio de Janeiro (Uerj), Juarez Tavares, foi o escolhido. Tavares é um dos grandes nomes do Direito Penal no Brasil e é também professor visitante na Universidade de Frankfurt, Alemanha.
O acordo de paz foi assinado em Cartagena das Índias e reuniu autoridades do mundo todo. Com o acordo, põe-se fim ao último conflito armado da América Latina e um dos mais longos. A paz irá chegar após três anos de negociações entre governo e rebeldes realizados em Havana.
O jurista Juarez Tavares, por ser signatário do manifesto dos juristas contra o impeachment, foi alvo de críticas e tentativas de assassinato de reputação. Seu livro "Teoria do Crime Culposo" foi elogiado por Claus Roxin, o maior penalista da atualidade (Nota deste blog: 'pai' da Teoria do Domínio do Fato, que, segundo ele próprio, foi distorcida por acusadores brasileiros na AP 470). Outro livro de Tavares, "Teoria do Injusto Penal", recebeu prefácio de Hassemer, um dos maiores juristas do mundo no âmbito de filosofia do direito penal.
Este convite vem confirmar a importância do trabalho desenvolvido pelo jurista e professor Juarez Tavares. (Fonte: aqui).

NA ESPANHA, JUIZ QUE USOU GRAMPO ILEGAL PARA PEGAR POLÍTICOS FOI INTERDITADO POR 11 ANOS


A tendência universal da submissão do poder político à lei

Por Sílvio Luís Ferreira da Rocha

Causou um certo espanto na comunidade jurídica a recente decisão do Órgão Especial do Tribunal Regional Federal da 4ª Região que ao arquivar o pedido de instauração de procedimento administrativo disciplinar contra magistrado, por suposta violação do dever funcional de manter o segredo sobre o conteúdo de conversas que foram interceptadas com ordem judicial, invocou, como principal argumento, situações excepcionais que justificariam o afastamento da incidência de regras jurídicas, verbis:
De início, impõe-se advertir que essas regras jurídicas só podem ser corretamente interpretadas à luz dos fatos a que se ligam e de todo modo verificado que incidiram dentro do âmbito de normalidade por elas abrangido. É que a norma jurídica incide no plano da normalidade, não se aplicando a situações excepcionais, como bem explica o jurista Eros Roberto Grau:
A ‘exceção’ é o caso que não cabe no âmbito da ‘normalidade’ abrangida pela norma geral. A norma geral deixaria de ser geral se a contemplasse. Da ‘exceção’ não se encontra alusão no discurso da ordem jurídica vigente. Define-se como tal justamente por não ter sido descrita nos textos escritos que compõem essa ordem. É como se nesses textos de direito positivo não existissem palavras que tornassem viável sua descrição. Por isso dizemos que a ‘exceção’ está no direito, ainque que não se encontre nos textos normativos do direito positivo. Diante de situações como tais o juiz aplica a norma à exceção ‘desaplicando-a’, isto é, retirando-a da ‘exceção [Agamben 2002:25]. A ‘exceção’ é o fato que, em virtude de sua anormalidade, resulta não incidido por determinada norma. Norma que, em situação normal, o alcançaria (GRAU, E. R. Por que tenho medo dos juízes (a interpretação/aplicação do direito e os princípios). 6ª ed. refundida do Ensaio e Discurso sobre a Interpretação/Aplicação do Direito. São Paulo: Malheiros, 2013. p. 124-25).
Ora, é sabido que os processos e investigações criminais decorrentes da chamada “Operação Lava-Jato”, sob a direção do magistrado representado, constituem caso inédito (único, excepcional) no direito brasileiro. Em tais condições, neles haverá situações inéditas, que escaparão ao regramento genérico, destinado aos casos comuns. Assim, tendo o levantamento do sigilo das comunicações telefônicas de investigados na referida operação servido para preservá-la das sucessivas e notórias tentativas de obstrução, por parte daqueles, garantindo-se assim a futura aplicação da lei penal, é correto entender que o sigilo das comunicações telefônicas (Constituição, art. 5º, XII) pode, em casos excepcionais, ser suplantado pelo interesse geral na administração da justiça e na aplicação da lei penal. A ameaça permanente à continuidade das investigações da Operação Lava-Jato, inclusive mediante sugestões de alterações na legislação, constitui, sem dúvida, uma situação inédita, a merecer um tratamento excepcional.
Parece-me, pois, incensurável a visão do magistrado representado – anterior à decisão do STF na Rcl nº 23.457 -, no sentido de que a publicidade das investigações tem sido o mais eficaz meio de garantir que não seja obstruído um conjunto, inédito na administração da justiça brasileira, de investigações e processos criminais – “Operação Lava-Jato” -, voltados contra altos agentes públicos e poderes privados até hoje intocados
O fundamento da decisão acima, com o devido respeito, ignorou, no entanto, intenso debate filosófico de certa forma já pacificado. Conforme lembra-nos Norberto Bobbio na obra O Futuro da Democracia, “ ao longo de toda a história do pensamento político repõe-se com insistência a pergunta: “Qual o melhor governo, o das leis ou o dos homens?” As diferentes respostas a esta pergunta constituem um dos capítulos mais significativos e fascinantes da filosofia política”[1].
Para o citado autor, o tema da superioridade do governo das leis percorre sem solução de continuidade toda a história do pensamento ocidental. De acordo com ele, a favor do primado do governo das leis sobre o governo dos homens existem na idade clássica dois textos respeitáveis, um de Platão e outro de Aristóteles. O primeiro:
“chamei aqui de servidores das leis aqueles que ordinariamente são chamados de governantes, não por amor a novas denominações, mas porque sustento que desta qualidade dependa sobretudo a salvação ou a ruína da cidade. De fato, onde a lei está submetida aos governantes e privada de autoridade, vejo pronta a ruína da cidade; onde, ao contrário, a lei é senhora dos governantes e os governantes seus escravos, vejo a salvação da cidade e a acumulação nela de todos os bens que os deuses costumam dar às cidades” (Leis, 715d).
O segundo:
“é mais útil ser governado pelo melhor dos homens ou pelas leis melhores? Os que apoiam o poder régio asseveram que as leis apenas podem fornecer prescrições gerais e não provêm aos casos que pouco a pouco se apresentam, assim como em qualquer arte seria ingênuo regular-se conforme normas escritas (…) Todavia, aos governantes é necessária também a lei que fornece prescrições universais, pois melhor é o elemento que não pode estar submetido a paixões que o elemento em que as paixões são conaturais. Ora, a lei não tem paixões, que ao contrário se encontram necessariamente em cada alma humana” (Política, 1286a).[2]
Ainda segundo Norberto Bobbio, o principal argumento em favor da tese contrária à da superioridade do governo dos homens sobre o governo das leis aparece na crítica que, nesta passagem, Aristóteles dirige aos defensores do poder régio. A crítica é claramente dirigida à tese sustentada por Platão no Polítco. Este diálogo platônico propõe-se a estabelecer a natureza da “ciência regia”, ou seja, daquela forma de saber científico que permite, a quem a possua, o exercício de um bom governo.
Depois de ter afirmado que faz parte da ciência regia a ciência legislativa, o Forasteiro completa: “Mas o melhor de tudo, parece, não é que as leis contem, mas que conte, bem mais, o homem que tem entendimento, o homem régio!”. A Sócrates, que pergunta por qual razão, o interlocutor responde: “Porque a lei jamais poderá prescrever com precisão o que é melhor e mais justo para todos, compreendendo aquilo que é mais conveniente”. Logo após sustenta com maior força que a lei, na medida em que pretende valer para todos os casos e para todos os tempos, é “semelhante a um homem prepotente e ignorante que não deixa a ninguém a oportunidade de realizar algo sem uma sua prescrição” (294ab).
Como de hábito, segue o exemplo clarificador:
“Do mesmo modo que o timoneiro, estando sempre em defesa do que é útil para a nave e os navegantes, sem necessidade de leis escritas mas tendo por norma apenas a arte, acaba por salvar os companheiros de nave, assim e deste preciso modo, será que não seria possível, da parte daqueles que têm tal atitude ao governar, emergir uma correta forma de governo, graças à força da arte, que é superior à força das leis?” (296e). [3]
Para o ilustre jusfilósofo italiano, quem sustenta a tese da superioridade do governo dos homens altera completamente a tese do adversário: o que constitui para este último o elemento positivo da lei, a sua “generalidade”, torna-se para o primeiro o elemento negativo, na medida em que, exatamente por sua generalidade, a lei não pode compreender todos os casos possíveis e acaba, assim, por exigir a intervenção do sábio governante para que seja dado a cada um o que lhe é devido. [4]
O outro, porém, por sua vez, pode defender-se alegando o segundo caráter da lei: o fato de ser “sem paixões” Com esta expressão, Aristóteles quer demonstrar que onde o governante respeita a lei não pode fazer valer as próprias preferências pessoais. Em outras palavras, o respeito à lei impede o governante de exercer o próprio poder parcialmente, em defesa de interesses privados, assim como as regras da arte médica, bem aplicadas, impedem os médicos de tratar os seus doentes conforme sejam eles amigos ou inimigos.
Enquanto o primado da lei protege o cidadão do arbítrio do mau governante, o primado do homem o protege da aplicação indiscriminada da norma geral — desde que, entende-se, o governante seja justo. A primeira solução subtrai o indivíduo à singularidade da decisão, a segunda o subtrai à generalidade da prescrição. Além do mais, assim como esta segunda pressupõe o bom governante, a primeira pressupõe a boa lei. As duas soluções são postas uma diante da outra como se se tratasse de uma escolha em termos absolutos: ou-ou. Na realidade, porém, ambas pressupõem uma condição que acaba por torná-las, com a mudança da condição, intercambiáveis.
O primado da lei está fundado sobre o pressuposto de que os governantes sejam maus, no sentido de que tendem a usar o poder em benefício próprio. Vice-versa, o primado do homem está fundado sobre o pressuposto do bom governante, cujo tipo ideal, entre os antigos, era o grande legislador. De fato, se o governante é sábio que necessidade temos de constringi-lo na rede de leis gerais que o impedem de avaliar os méritos e os deméritos de cada um? Certo, mas se o governante é mau não é melhor submetê-lo ao império de normas gerais que impeçam a quem detém o poder de erigir o próprio arbítrio à condição de critério de julgamento do que é justo e do que é injusto? [5].
Ainda segundo o citado autor, todo o pensamento político do medievo estaria dominado pela ideia de que bom governante é aquele que governa observando as leis de que não pode dispor livremente porque o transcendem, como são as proclamadas por Deus ou as inscritas na ordem natural das coisas ou ainda as estabelecidas como fundamento da constituição do estado (as leis, exatamente, “fundamentais”).
No De legibus et consuetudinibus Angliae, Henri Bracton enuncia uma máxima destinada a se tornar o princípio do estado de direito: “Ipse autem rex non debet esse sub homine sed sub deo et sub lege quia lex facit regem”. Não se podia enunciar com maior força a ideia do primado da lei: não é o rei que faz a lei mas a lei que faz o rei. [6]
Da Inglaterra, ainda segundo o ilustre jurista, o princípio da rule of law transfere-se para as doutrinas jurídicas dos estados continentais dando origem à doutrina, hoje verdadeiramente universal (no sentido de que não é mais contestada por ninguém em termos de princípio, tanto que quando não se a reconhece se invoca o estado de necessidade ou de exceção), do “estado de direito”, isto é, do estado que tem como princípio inspirador a subordinação de todo poder ao direito, do nível mais baixo ao nível mais alto, através daquele processo de legalização de toda ação de governo que tem sido chamado, desde a primeira constituição escrita da idade moderna, de “constitucionalismo”.
Existem duas manifestações extremamente reveladoras da universalidade desta tendência à submissão do poder político ao direito. A primeira é a interpretação weberiana do estado moderno como estado racional e legal, como estado cuja legitimidade repousa exclusivamente no exercício do poder em conformidade com as leis; a segunda é a teoria kelseniana do ordenamento jurídico como cadeia de normas que criam poderes e de poderes que criam normas, cujo marco inicial é representado não pelo poder dos poderes, como foi sempre concebida a soberania na teoria do direito público que se veio formando com o formar-se do estado moderno, mas pela norma das normas, a norma fundamental (Grundnorm), da qual dependem a validade de todas as normas do ordenamento e a legitimidade de todos os poderes inferiores. [7]
No entanto, uma fratura a essas ideias pode ser localizada na experiência teórica-jurídica-política engendrada por alguns para legitimar os fundamentos do exercício do poder pelos adeptos do nacional-socialismo. Colhe-se da obra de Mario G. Losano que:
“Os teóricos nacional-socialista censuravam os positivistas por operarem com conceitos abstratos.Visto que a nova teoria jurídica nacional-socialista pretendia seguir a via oposta, sua palavra mágica foi, portanto, ‘concreto’” [8].
Carl Schmitt ao expor em 1934 suas ideias sobre os ordenamentos concretos defendeu que “o direito não se baseava nem em normas positivas, nem em sentenças transitadas em julgado nos tribunais, mas nascia dos “ordenamentos concretos” da vida social, de modo que o direito positivo deveria estar em harmonia com a ordem interna da realidade ou, se não estava, deveria ser modificado de acordo com as exigências dessa mesma realidade. Tais ordenamentos concretos teriam a força de rejeitar as normas de leis gerais e abstratas que a eles se opõem a partir do exame da essência das coisas e sua global conexão de sentido e serviram, em última análise, como um dos métodos para intervir no direito vigente nos momentos de grandes e rápidas modificações, nos quais se acentua a divergência entre realidade social e direito positivo. [9]
Para Ronaldo Porto Macedo – de acordo com o modelo jurídico de Carl Schmitt – a regra (no ordenamento concreto) segue a situação mutável pela qual foi fixada. Uma norma governa uma situação somente até que o tipo concreto, pressuposto como normal, não foi eliminado. Por isso, para ele não existe norma aplicável a um caos; primeiro deve ser estabilizada uma ordem e o soberano é aquele que decide de modo definitivo se o estado de normalidade reina realmente. [10]
Não é difícil perceber que essa teoria se mostra completamente incompatível com qualquer ordem jurídica democrática fundada no princípio da legalidade estrita. Revela-se, com isso, que o principal argumento exposto pelo órgão especial para rejeitar o pedido que fora formulado de abertura de processo administrativo disciplinar por presumida violação ao dever de manter em segredo o conteúdo das gravações telefônicas interceptadas fundamentou-se, intuitivamente, em nítida teoria antidemocrática, que busca substituir o governo fundado no estado democrático de direito por um governo baseado na autoridade moral de seu governante e que não encontra ampara nas teorias modernas de exercício do poder.
O legítimo sentimento social de enfrentamento das mazelas da corrupção em nossa sociedade não deve ser usado como fundamento para subverter-se a ordem jurídica e invocar exceções ou estados de necessidade onde eles realmente não existem. Aliás, para espancar dúvidas, diga-se, com todas as letras, não haver, em nosso ordenamento jurídico, qualquer espaço para aplicação das ideias relacionadas ao estado de exceção, pois até elas foram estritamente disciplinadas pela própria Constituição quando cuidou das situações de crise e respectivos instrumentos normativos – o estado de defesa e o estado de sítio – e os submeteu aos princípios da necessidade; temporariedade e proporcionalidade. [11]
A Justiça Espanhola lidou com um caso parecido. Um juiz famoso, de reconhecida atuação na responsabilização de violadores de direitos humanos, foi condenado pelo Supremo Tribunal Espanhol a onze anos de interdição do exercício da magistratura por abuso de poder por ter sido considerado culpado de ter ordenado escutas ilegais no âmbito do inquérito relacionado a caso que envolvia acusações de corrupção a dirigentes de partido político no governo de determinada região.
O citado magistrado foi denunciado pelo advogado de um dos acusados por ter ordenado a interceptação de conversas dos presos relacionados ao caso com os respectivos advogados, o que, em tese, configuraria prevaricação e vulneração de intimidade. As escutas foram anuladas e a acusação reconhecida pois entendeu-se que o citado magistrado ordenara as escutas a partir de uma interpretação claramente errônea da lei e que violara o direito fundamental de defesa dos acusados. Apesar do prestígio do citado juiz, a Corte não invocou a teoria da exceção para livrá-lo de um juízo de responsabilização. No caso da Espanha triunfou o Estado Democrático de Direito e o princípio caro a uma Monarquia Constitucional ou a uma República: a de que todos, sem exceção, estariam submetidos ao império da lei.
Silvio Luís Ferreira da Rocha é Mestre e Doutor em Direito Civil pela PUC-SP, Doutor e Livre-Docente em Direito Administrativo pela PUC-SP. Professor de Direito Civil e Direito Administrativo da PUC-SP. Juiz Federal Criminal em São Paulo. Ex- Conselheiro do Conselho Nacional de Justiça
[1] Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia: Uma defesa das regras do jogo, 6ª edição, Editora Paz e Terra, p.151.
[2] Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia: Uma defesa das regras do jogo, 6ª edição, Editora Paz e Terra, p.151.
[3] Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia: Uma defesa das regras do jogo, 6ª edição, Editora Paz e Terra, p.153
[4] Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia: Uma defesa das regras do jogo, 6ª edição, Editora Paz e Terra, p.153
[5] Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia: Uma defesa das regras do jogo, 6ª edição, Editora Paz e Terra, p.154.
[6] Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia: Uma defesa das regras do jogo, 6ª edição, Editora Paz e Terra, p.155.
[7] Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia: Uma defesa das regras do jogo, 6ª edição, Editora Paz e Terra, p.156.
[8] Sistema e Estrutura no Direito, vol. 2, o Século XX,p.211.
[9] Mario G. Losano, Sistema e Estrutura no Direito, vol. 2, o Século XX, p.212-218.
[10] Ronaldo Porto Macedo, O Decisionismo Jurídico de Carl Schdmit, p.213, disponível emwww.scielo.br/pdf/in/n.32pdf.
[11] Aricê Moacyr Amaral dos Santos, O estado de emergência, Sugestões Literárias, 1981, p.33.
[Silvio Luís Ferreira da Rocha é Mestre e Doutor em Direito Civil pela PUC-SP, Doutor e Livre-Docente em Direito Administrativo pela PUC-SP. Professor de Direito Civil e Direito Administrativo da PUC-SP. Juiz Federal Criminal em São Paulo. Ex- Conselheiro do Conselho Nacional de Justiça].
(Fonte: site jurídico Justificando; texto reproduzido no Jornal GGN - aqui).

O SORRISO


J Bosco.
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Com o cartum acima, o paraense J Bosco ganhou o principal prêmio do Salão Graficã Satiricã da Romênia 2016, fazendo jus ao Prêmio George Gavrilean.

O cartunista, ilustrador, caricaturista e chargista do jornal O Liberal, de Belém, é titular do concorrido blog Lápis de Memória - AQUI.

DA SÉRIE CARTUNS HILÁRIOS BRASIL


Amarildo.

BASTA DE AUTORITARISMO JURÍDICO


Cidadania urgente: Basta de autoritarismo jurídico
Basta de autoritarismo no uso seletivo e partidarizado praticado por setores do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal, estimulados pela grande mídia oligopolizada.
É com indignação que nos manifestamos contra o rompimento continuado do estado democrático de direito no Brasil. Interpretações parciais de procedimentos judiciários, exacerbados e estimulados por um sentimento de ódio que tomou conta de setores privilegiados da sociedade brasileira, empurram nosso país para um retrocesso impensável e negam princípios básicos de respeito a uma ordem democrática tão duramente conquistada na luta contra a ditadura militar.
Tratar a política como crime e os políticos como criminosos é uma demonstração preocupante de ignorância quanto ao funcionamento das sociedades humanas e do lugar da política na construção dos fins da ação pública. Desrespeitar, de forma reiterada, o direito de defesa, coagir pela violência através de suposições de delitos não comprovados, condenar pela imprensa espetaculosa sem levar em conta um elemento central dos direitos civis, que é a presunção de inocência, que atribui ao acusador o ônus de provar a culpa e não o contrário, tudo isso fragiliza a cidadania diante de poderes que podem, facilmente, se tornar tirânicos.
Já é passada a hora de a sociedade brasileira dar um basta a poderes que se colocam acima da lei, que atropelam direitos humanos e civis, e que estão induzindo o país a um conflito que pode ganhar enormes proporções.
Assinaturas iniciais:
Paulo Sergio Pinheiro (cientista político, USP; relator de direitos humanos, ONU)
Wanderley Guilherme dos Santos (cientista político, IESP-UERJ, membro da Academia Brasileira de Ciência)
Marco Lucchesi (Letras-UFRJ, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras)
Leonardo Boff (teólogo)
José Miguel Wisnik (crítico literário, USP, músico)
Roberto Saturnino Braga (ex-senador, Presidente do Centro Internacional Celso Furtado)
Alfredo Bosi (crítico literário, IEA-USP, editor de Estudos Avançados)
Luiz Pinguelli Rosa (físico, COPPE-UFRJ)
Luiz Carlos Bresser-Pereira (professor emérito da FGV; ex-ministro da Fazenda, da Reforma do Estado e de C&T)
Frei Beto (escritor)
Silke Weber (socióloga UFPE)
Hebe Mattos (historiadora UFF)
Ennio Candotti (físico, ex-presidente SBPC)
Joel Birman (psicanalista, UFRJ)
Luiz Alberto Gomez de Sousa (sociólogo, Universidade Cândido Mendes)
Carlos Morel (biólogo, FIOCRUZ)
Jurandir Freire Costa (psicanalista, UERJ)
Isabel Lustosa (historiadora, Casa Rui Barbosa)
Ricardo Rezende (antropólogo, Escola de Serviço Social – UFRJ)
Afrânio Garcia Jr. (antropólogo, École des Hautes Études en Sciences Sociales – Paris)
Cecília Boal (psicanalista, Teatro do Oprimido)
Moacir Palmeira (antropólogo, Museu Nacional – UFRJ)
Ivo Lesbaupin (sociólogo, ex-presidente da ABONG)
Heloísa Starling (historiadora UFMG)
José Ricardo Ramalho (sociólogo, IFCS, UFRJ)
Dulce Pandolfi (historiadora, CPDOC-FGV)
Adalberto Cardoso (sociólogo IESP-UERJ)
José Sergio Leite Lopes (antropólogo Museu Nacional-CBAE-UFRJ)
Regina Novaes (antropóloga, UFRJ)
Beatriz Heredia (antropóloga, IFCS-CBAE-UFRJ)
Agostinho Guerreiro (engenheiro, ex-presidente do Clube de Engenharia)
Elina Pessanha (antropóloga, IFCS-UFRJ)
Lígia Dabul (antropóloga UFF)
José Roberto Novaes (economista, cineasta, UFRJ)
Patrícia Birman (antropóloga, UERJ)
Sarah Telles (socióloga, PUC-Rio)
Rosilene Alvim (antropóloga, IFCS-UFRJ)
Regina Morel (socióloga, IFCS-UFRJ)
Charles Pessanha (cientista político, UFRJ)
Neide Esterci (antropóloga IFCS-UFRJ)
Ana Heredia (bióloga, editora revistas científicas)
Alba Paiva (psicanalista)
Oscar Acselrad (engenheiro, UFRJ)
Michael Lowy (sociólogo, diretor de pesquisa do CNRS, França)
Gisele Cittadino (Direito, PUC-Rio)
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O manifesto acima, recentíssimo, já conta com mais de mil e seiscentos apoiadores. Este blog, inflexível  defensor da Constituição, persistirá neste entendimento, sejam quais forem as circunstâncias - razão por que louvamos a iniciativa do protesto. Para interessados em apoiá-lo: AQUI

O DEBATE HILLARY TRUMP


Marian Kamensky. (Eslováquia).

A LAVA JATO CINEMATOGRÁFICA


"Meu pai era fã de Os Miseráveis (1935), uma das muitas versões para o cinema do clássico de Victor Hugo, com Fredric March como Jean Valjean e Charles Laughton como seu implacável perseguidor, o inspetor Javert. Todas as vezes que o filme passava na sessão Coruja, meu pai juntava os filhos no sofá para lhe fazerem companhia. A história, portanto, é muito vívida em minha memória. Valjean, desesperado pela fome, roubara um pão. E, por este crime, é caçado por Javert a vida inteira, com requintes de sadismo.

O excessivo rigor da Lava-Jato apenas com os petistas, a mão pesada seletiva do juiz Sérgio Moro, sempre me evocam Javert, o inspetor que se achava a própria encarnação da lei. Uma coisa é lutar contra a corrupção, que é o que os procuradores e Moro dizem estar fazendo com esta operação. Outra, bem diferente, é agregar a esta sanha supostamente moralizadora um indisfarçável justiceirismo, capaz de despertar na sociedade um sentimento torpe de vingança.

Como nas execuções medievais, não basta submeter os acusados ao rigor da lei, é preciso expô-los em praça pública, garantir plateia para os momentos mais… miseráveis; as emissoras de TV (sobretudo a Globo) são avisadas com antecedência de cada uma das ações. A própria necessidade de prisão preventiva já foi denunciada pelos advogados de defesa dos detidos na operação como “tortura psicológica” para forçar a delação premiada.

Reúno aqui alguns momentos da Lava-Jato que mais me fizeram vir à mente as cenas de Os Miseráveis, por sua mesquinhez. Este tipo de “castigo” está em total desacordo com as noções mais modernas de punição, como as que defendem a adoção de penas alternativas nos casos em que o criminoso não oferece risco à sociedade. Certamente momentos piores virão e este post poderá ser ampliado no futuro.

Prendam-no no hospital – O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi preso no dia 22 de setembro pela Lava-Jato na porta do hospital Albert Einstein, enquanto aguardava sua mulher, que está se tratando de um câncer, ser operada. Vários juristas criticaram a necessidade do pedido de prisão provisória de Mantega. Após a repercussão negativa, Moro acabou revogando o pedido no mesmo dia, como se estivesse agindo por questões humanitárias. Ora, se a prisão era mesmo necessária, por que foi revogada?

Sequestrem a casa da mãe – Em abril, o juiz Moro sequestrou judicialmente a casa onde mora a mãe de José Dirceu, Olga Guedes da Silva, em Passa-Quatro (MG). A senhora tem 94 anos. Moro, magnânimo, decidiu que ela pode continuar morando na própria casa como “depositária”.

Tranquem ele no escuro – O ex-senador do PT Delcídio contou à repórter Malu Gaspar, da revista Piaui, que decidiu fazer a delação premiada após ter sido trancado num quarto sem luz na sede da Polícia Federal em Brasília, sufocado pela fumaça do gerador do prédio. “Aquilo encheu o quarto de fumaça, e eu comecei a bater, mas ninguém abriu. Os caras não sei se não ouviram ou se fingiram que não ouviram. Era um gás de combustão, um calor filho da puta. Só três horas mais tarde abriram a porta. Foi dificílimo”, contou Delcídio.

Tirem-lhes os menores prazeres – Em agosto, Dirceu e seu companheiro de cela, Pedro Argôlo, foram castigados pela Lava-Jato porque foram encontrados no cubículo que dividem em Curitiba quatro pendrives, um carregador de celular modelo Samsung, um carregador de um aparelho portátil de reprodução de música e um cabo com entrada USB. Nenhum celular, contudo, foi achado. Os pendrives continham filmes e músicas. Só como comparação, até os presos da ditadura tinham direito a escutar seus radinhos de pilha.

Conduzam-no coercitivamente – Em março, o ex-presidente Lula, que nunca se recusara a comparecer à Justiça e ainda não era réu em nenhuma ação, foi conduzido coercitivamente a mando de Sérgio Moro em circunstâncias que até hoje permanecem nebulosas. Lula foi tirado de sua casa e levado ao aeroporto de Congonhas, onde foi ouvido durante três horas e meia. Existiram muitos rumores de que Lula iria ser levado para Curitiba e alguma coisa fez com que a operação fosse abortada. O que ocorreu? Foi mesmo necessária a condução de Lula coercitivamente? Sem dúvida: não.

Mantenham-no sujo – Os advogados do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, reclamaram ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) em abril de 2014 melhores condições de prisão para seu cliente, que não podia tomar banho, se exercitar ou ter acesso à luz do dia (tomar banho de sol) durante os finais de semana. Costa chegou a escrever uma carta onde se queixava que, após reclamar da falta de banho, teria sido ameaçado pelos policiais de ser mandado para o presídio de segurança máxima de Catanduvas. Em agosto do mesmo ano ele assinou a delação premiada.

Impeçam-lhes o afeto – Os presos da Lava-Jato não têm direito a visita íntima de suas mulheres e companheiras. Qual a justificativa disso a não ser abalar ainda mais o psicológico do indivíduo? Segundo especialistas, a visita íntima é importante para a manutenção dos laços afetivos e a ressocialização do preso. A intenção da prisão não é que paguem por seus erros e recuperá-los para a sociedade? A castidade forçada, afinal, não faz parte da pena.

Confisquem as castanhas – A mãe de Pedro Argôlo, que é do sul da Bahia, costumava mandar doces caseiros e castanhas para o filho, que repartia com José Dirceu, seu companheiro de cela. Sem explicação alguma, a entrada das castanhas e compotas foi subitamente proibida e agora só entram produtos alimentícios para os presos se houver recomendação médica.

Façam-no falar – Em fevereiro deste ano, Marcelo Odebrecht foi transferido do Complexo Médico-Penal em Pinhais, onde estão detidos os presos da Lava-Jato, para a carceragem da Polícia Federal, onde fica numa cela de 7 metros quadrados, que divide com outros detentos. Em dez dias na nova cela, onde permanece encarcerado por 23 horas seguidas com apenas uma para o banho de sol, Marcelo estava com quadro de anemia e deficiência de vitamina D ligada a hipoglicemia. A defesa do empreiteiro solicitou reforço na dieta e pediu que voltasse ao complexo. Moro autorizou a melhora alimentar, mas não permitiu o retorno a Pinhais."





(De Cynara Menezes, post intitulado "Grandes momentos 'Os Miseráveis' da operação Lava Jato - até agora", publicado em seu blog - aqui - e reproduzido no blog do Miro - aqui.

Noticia-se no dia de ontem, 27 - aqui -, que os 74 militares responsáveis pelo massacre do Carandiru em 1992 - cento e onze presidiários assassinados - foram premiados com a anulação dos julgamentos, que haviam culminado com penas que variavam entre 48 e 624 anos de reclusão. Há quem não se tenha surpreendido com a notícia, até porque, diriam os mais sarcásticos, nenhum dos 74 militares é petista...

Na segunda, 26, os doutos procuradores "esclareceram" que José Dirceu NÃO é o 'JD' constante em uma planilha da Odebrecht por eles apreendida tempos atrás. Com essa singela obervação, José Dirceu foi isentado do crime de apropriação indevida de 48 milhões de Reais, isso mesmo, QUARENTA E OITO MILHÕES DE REAIS! E isso foi dito na maior naturalidade, sem o menor sinal de... de quê, mesmo? Os iluminados cismam em uma convicção, sem prova alguma, violentam a reputação já enxovalhada de um cidadão, confessam candidamente o "equívoco", e pronto, tudo bem. A mídia, como sempre, faz cara de paisagem; o Guardião, por sua vez, apavorado, nem se toca. E ficamos a indagar: se acontece esse absurdo envolvendo uma convicção do próprio MPF, o que dizer da pertinência das delações premiadas, especialmente aquelas obtidas a fórceps?).

NO POSTO IPIRANGA...


Ivan Cabral.

UM POUCO DE HISTÓRIA: POLÍTICA E ECONOMIA (E UMA TESE SINGULAR DO AUTOR)


Caminhos cruzados da política e da economia

Por André Araújo

Nas grandes crises do Brasil moderno, de 1930 até hoje, a economia dava as cartas para a política e vice-versa, de modo que não é possível interpretar a economia sem analisar a política. 
Em 1930 foi a crise provocada pela queda da Bolsa de Novar York que derrubou os preços do café e junto com o café foi derrubado o poderoso Presidente Washington Luis, tão poderoso que quebrou o Pacto Café com Leite e impôs seu sucessor Julio Prestes de Albuquerque.

A primeira crise cambial dos anos 40, ao fim do Governo Dutra, interrompeu um clima de boa vida que secou com o fim dos dólares acumulados durante a Segunda Guerra.

De 1946 a 1949 foi uma festa de Hollywood. Meu pai vivia da importação de caminhões da marca International, nunca a família esteve tão bem, com férias nos EUA naqueles tempos de avião a pistão.

Subitamente acabaram as licenças de importação, o negócio desabou, o dinheiro acabou, abriu-se o caminho para o retorno triunfal de Getúlio Vargas, que saiu pela direita em 1945 e se reinventou pela esquerda nacionalista em 1950.

Como não havia mais dólares era preciso criar a Petrobras, a Eletrobras e o BNDES dentro de um discurso nacional-desenvolvimentista . Era a economia embalando a política como sempre.

Com Juscelino assumindo a Presidência, em 1955, em uma eleição contestada, sua única saída era o crescimento econômico a qualquer preço, o que foi feito com as encomendas de papel moeda à Thomas de la Rue & Co.Ltd. de Londres e à American Bank Note Co. de Philadelphia.

O Brasil era o maior cliente mundial das impressoras de papel moeda; trabalhavam 24 horas por dia imprimindo dinheiro para o Brasil, com o que Juscelino Kubitschek fez Brasilia e as 30 metas de desenvolvimento, inclusive a indústria automobilística, a petroquímica,  a naval, o incremento da agricultura, as indústrias de televisores, geladeiras, aspiradores e liquidificadores, as novas grandes fábricas de cimento para a construção de Brasília, as primeiras grandes hidroelétricas federais, muitas rodovias, refinarias de petróleo, oleodutos.

Jango caiu por uma grande crise econômica. O primeiro PIB negativo em muitos anos, era a economia dando o lastro para a derrubada do Presidente, poucos falam que 1963 e 1964 foram anos péssimos para a economia, o que fez a cama para Jango cair não foram só os tanques. (Nota deste blog: ou Lincoln Gordon...).

O Governo militar teve uma década e meia de bom desempenho econômico, com o que o apoio do povo e das elites era enorme. Os governos Médici e Geisel eram populares e só a esquerda radical lutava contra, a massa e os empresários estavam satisfeitos, havia emprego, lucros, fábricas novas, os loteamentos a prestação e as construções de casas em mutirão com o que se criaram 600 bairros novos em São Paulo e se ergueram os grandes sistemas de abastecimento de água de São Paulo e Rio bem como seus metrôs.

O descarrilhamento da economia ao fim do ciclo militar foi a pedra de toque da redemocratização, o regime já não mais garantia a prosperidade, veio a Nova República com quadros medíocres que aprofundaram a crise, arrastada pelo provincianismo do governo Sarney, que abriu caminho para Fernando Collor.

A economia foi a maestra do tempo político.

No ciclo Itamar-FHC a mesma economia  governou a política, gerou o Real, a reeleição e uma certa organização sem muita prosperidade, com um desenvolvimento medíocre, apesar da moeda estável; foi o tempo da "modernização", e não do desenvolvimento integrado.
O ciclo PT-Lula foi brilhante no primeiro mandato, sofrível no segundo e tenebroso nos governos Dilma, gerando o impeachment pela economia. Se houvesse crescimento, Dilma passava batido em seus gigantescos defeitos. (Nota deste blog: Além dos reflexos negativos da crise global, com o declínio brutal do preço e do volume comercializado de commodities, é preciso levar em conta o boicote parlamentar às iniciativas econômicas do governo Dilma).

Um dos segredos do primeiro Governo Lula foi o apoio majestoso do Governo George W. Bush, que tinha profunda admiração por Lula a ponto de convidá-lo para um fim de semana em sua casa de campo, 'como um peão desses chegou à Presidência de um grande País?', Bush não se cansava de admirar, 'esse cara é extraordinário', dizia.

Agora entra o Governo de transição com um receituário totalmente equivocado. Meirelles não tem envergadura, liderança, carisma para puxar a economia para fora da recessão, a escolha de um ultra-ortodoxo como Ilan Goldfajn no Banco Central é o arremate de chumbo; essa receita não leva a lugar nenhum porque parte de um erro profundo de diagnóstico.

Para a dupla dos carecas a inflação é o maior problema - o que está furado, o problema macro é a recessão, a inflação é acessório, mas o pior é colocar a política econômica no trilho do mercado financeiro, que jamais vai gerar empregos nem para um por cento dos desempregados.

A lógica do mercado financeiro é desgarrada da lógica da política econômica como parte da política geral e social, de nada adiante subir o rating e a inflação cair com as ruas tomadas por miseráveis. Nesse quadro político-perigoso NÃO VIRÃO OS INVESTIMENTOS, o País jamais sairá da recessão caminhando para uma senhora depressão.

A grande ilusão que foi vendida ao governo pelo PSDB-DEM é que agradando o mercado tudo volta a florir. Não vai acontecer. Não há tempo para as reformas nesse governo, é preciso esperar o novo eleito em 2018.

A única coisa que esse Governo pode fazer e estimular rapidamente a economia com grandes investimentos públicos que geram empregos imediatos, injetando dinheiro novo para criar demanda sadia. É um remédio na veia para resolver uma crise aguda que é a sobrevivência de 12 milhões de desocupados e suas famílias - coloca 4 pessoas por família, são 50 milhões de infelizes sem meios de sobrevivência, revoluções sangrentas começaram por muito menos gente sem meios de sobrevivência.

A economia está com capacidade ociosa de 40%, injetar um trilhão de Reais em dois anos nem faz coceira na inflação, se der alguma coisa é perfeitamente suportável.
O Brasil dos anos dourados de JK conviveu com inflação média no período de 36%. Hoje essa expansão monetária poderia acrescentar quase nada, uns 2 a 3% acima dos atuais 7%, 10% ao ano. Isso é o que a Índia aceitou para não parar de crescer nos últimos anos, um crescimento quase chinês, de 5 a 6% ao ano.

Ninguém desprezou a Índia por causa disso, ao contrario, é o país com rating melhor que o nosso, admirado e cortejado pelos bancos e fundos, exportador de capital, controla boa parte da siderurgia mundial e convive sem maiores problemas com inflação alta.
  
É impressionante a timidez dos governos dos últimos 10 anos, ninguém tem ousadia! Importaram essa porcaria chamada "meta de inflação", que  encarroça nosso crescimento. Todos têm medo do Boletim FOCUS.

Em uma pesquisa em português, de piada, perguntaram aos bancos quanto eles querem de juros e aí o BC segue o "quiz" do Chacrinha: "Vocês querem quanto de juros? Então tomem, nós vamos dar!"

Ai dão a SELIC que eles querem. Não tem coisa mais estúpida no planeta. Agora a ata do Copom diz que os juros só vão cair quando se fizer o ajuste fiscal, então não vão cair nem em 10 anos, é humor negro da Casa Mal Assombrada.

É absurdo emitir R$ 1 trilhão de Reais em dois anos? Que coisa! Ninguém acha absurdo o Tesouro do Brasil pagar R$1 trilhão de juros em dois anos,  o mesmo valor para nada. Imprimir dinheiro é a solução, está ai a nossa Casa da Moeda que pode trabalhar 24 horas, um pouco de inflação alivia a vida dos devedores, o maior dos quais é o Tesouro, estimula toda a economia, especialmente os pequenos negócios e faz diminuir a dívida pública, a dívida das famílias e das empresas.

Maior bizarrice é não ter inflação mas ter juros de País com hiperinflação, os bancos cobram 500% no cartão de crédito e quando a inflação baixou um pouco OS JUROS NÃO CAÍRAM.

A emissão de DÍVIDA PUBLICA é a mesma coisa que a emissão de moeda porque cria quase-moeda, que é meio circulante COM JUROS. Coisa completamente idiota, pois não emitimos moeda mas emitimos títulos públicos remunerados que também significam liquidez, MAS estéril, que não serve para nada, a não ser sustentar rentistas em Miami. (Nota deste blog: Há rentistas também no Brasil. E muitos).

É a economia que rege a política, esse governo não tem chance com essa política econômica. As reformas são necessárias, mas a base política para elas serem aprovadas está numa economia em crescimento e nunca em um ambiente de recessão sem futuro.

(Fonte: Jornal GGN - aqui).

A DÍVIDA PÚBLICA E SEUS JUROS ESCORCHANTES ARREBENTAM O BRASIL

               "Os pobres nasceram para abastecer os ricos"

Sabir Nazar.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

PARA TRISTEZA DE RADICAIS EM GERAL... PAZ NA COLÔMBIA


Arcadio Esquivel. (Costa Rica).

A CONFESSIONAL ANA RELATA ENCONTRO COM CALVIN, SNOOPY E MAFALDA


Precisamos falar sobre Calvin, Mafalda e Snoopy

Por Ana Gabriela Rebelo

Não gosto de amigo oculto. Quer dizer, não gosto daqueles amigos ocultos convencionais de presentes pré-determinados e apáticos. Principalmente quando acontecem no trabalho. Existe alguma coisa mais formalizada informal que presentes utilitários trocados com uma pessoa com a qual você nunca chegou, sequer, a trocar palavras? E, depois, ainda é de praxe aquele meio abracinho, em uma fotografia sem graça de sorrisos amarelos. Bem, o último ano que passou não foi muito bom para mim. Uma das coisas, porém, que posso listar no “lado bom da força” foi que, pela primeira vez em muito tempo, não participei de amigo oculto nenhum. Isso, com certeza, nos poupa um belo tempo gasto em trabalho não remunerado. Tem pessoas que gostam, e eu juro que, às vezes, tento entender como alguém pode gostar de atividade tão impessoal de pseudo-intimidade-alegre. Às vezes fico pensando porque não trocamos notas de dinheiro dentro de envelopes coloridos. Acho que seria mais divertido, ao menos poderíamos colorir os envelopes e, talvez, escrever neles várias sugestões de presentes os quais você acredita que, realmente, têm afinidade com aquela pessoa. Daí ela recebe aquilo, vê seu colorido, seu traço de desenho tosco... Talvez o papel venha com alguma mancha de gordura que você deixou cair enquanto desenhava e comia rabanadas na cozinha à noite. E aí você pode até se desculpar pela mancha, explicar que estava fazendo rabanadas, e talvez então surja uma boa conversa. Uma conversa que não precisa ser alegre, mas que tenha vontade de conversa. É, às vezes tento entender e penso mais ou menos por aí: o amigo oculto pode ser bom, mas precisa ter brechas para o oculto. Se isso não acontece, fica tudo comercial, e aí realmente é aquele horário político obrigatório que ninguém quer ver, mas todos fingem que se interessam pra não pegar mal.



A coisa já começa ruim, quando primeiro tem aquele momento em que você torce para tirar alguém com quem você tenha o mínimo de proximidade. Ou, ao menos, que não seja aquela pessoa nova que apareceu de paraquedas na última hora, da qual você não sabe absolutamente nada. E se você apertou os olhos e pediu com todas as forças para não ser aquela pessoa, você errou. - “Que não seja Zezinho, que não seja... é esse mesmo o nome dele?...” Pronto! É o Luizinho... Luizinho! É esse o nome... Sabia que era alguma coisa com “inho”! Bom, agora comece rapidamente a pensar o que você vai falar sobre ele. Lembra o dia que você esbarrou com ele no corredor e ele estava... Como ele estava?... De lado! Isso, ele estava meio de ladinho, passando rápido pelo corredor e aquilo te irritou muito, pois você estava de TPM naquele dia, e aquela criatura correndo rápido de ladinho te lembrou uma porra de um siri gigante que atrapalhava teu caminho! Que inferno! Esse puto de siri! Ótimo, você já tem algo a dizer. O presente. Bem, “presente” me parece uma palavra meio equivocada neste caso. Equivocada porque não me parece que tenha a ver com o ato de presentear alguém. Presentear alguém envolve uma troca íntima. Acredito com todas as forças que precisamos saber presentear sem que isso envolva um ato comercial. Presentear não deve, necessariamente, precisar de dinheiro. Presente é gostoso quando é algo pensado, algo que tenha um pouco de si e do outro. Não gosto de ter que sair, com pressa e sem vontade, no meio do horário de almoço, para comprar uma bolsa de couro de determinada marca para o Zezinho! Ou Luizinho! Whatever! Aliás, eu nem gosto do “fulanoZINHO”. E gosto menos ainda de fingir que gosto! Nós adultos somos muito ruins com isso. Fingimos tudo. Fingimos que gostamos quando não gostamos. E também fingimos que não gostamos quando gostamos. Quando crianças, sentíamos o que sentíamos e pronto. E aí vamos crescendo e sendo educados a esconder o coração, não tirar melecas e participar de coisas chatas por mera formalidade. Nos tornamos adultos carregados de melecas velhas e quinquilharias no coração. Não vou ser romântica e dizer que gosto de conversar com crianças. Não gosto de conversar com todas as crianças, tem crianças que são chatas. Tem crianças que só falam do homem aranha, e ficam gritando, e passam horas fazendo explosões com a boca. Mas isso não é um problema, elas também não conversam comigo quando me acham chata. É uma questão de afinidade e sinceridade. Por isso gosto das crianças, mesmo quando são chatas.




Trabalhei com crianças em vários momentos da vida. Meu penúltimo emprego era com crianças. Trabalhava em uma equipe de vários profissionais que faziam atendimentos de natureza psicossocial com crianças. E foi com essas pessoas que vivi minha mais recente experiência de amigo oculto. Mas ali era diferente, convivíamos com crianças, poderíamos brincar, sabíamos brincar! Fiquei animada e logo me inscrevi na ata de reunião para propor meu fabuloso plano de amigo oculto i-no-va-dor! - “Então... vamos presentear nossos amigos com brincadeiras! Cada um propõe uma brincadeira que acha que tem a ver com seu amigo. Ou também pode ser uma música, uma performance, uma esquete!” Bom... As caras não foram muito receptivas, então eu tentei outra coisa. - “Então vamos nos presentear com brinquedos. Não brinquedos caros... porque atualmente os preços de brinquedos estão absurdos... Podemos escolher besteiras, brinquedos simples, dessas lojinhas de um e noventa e nove. Que tal?” Novamente as carinhas não foram lá muito boas. Os narizes estavam torcidos e os olhos de pena para mim foram tantos, que cheguei a pensar que realmente havia algo de errado com a minha pessoa. O silêncio se demorou por alguns dez segundos, até que alguma boca salivando se rebelou: - “Eu quero um cinto bonitoooo! Não sou mais criança.” As outras boquinhas rapidamente também começaram a salivar com bolsas e cremes, maiôs, sandálias e maquiagens. Estava decidido, precisávamos de cintos bonitos para combinar com as calças.



No final dos anos setenta Mafalda pergunta a su mamá:-”...com quantos anos a gente fica velha?” Su mamá lhe responde que é tudo uma questão de manter o espírito jovem. O que leva a menina a outra pergunta:- “Tudo bem... mas e o espírito... com que idade ele começa a precisar de maquiagem?” Ai Mafalda... tantos anos trabalhamos com estas crianças e nunca, nem sequer em uma única reunião, te convidamos! Convidamos Sigmund Freud e o senhor Lacan, mas nunca a Mafalda! Gostaria de saber dos livros de cabeceira do senhor doutor que me trata. Acho que, antes de nos propormos a cuidar de alguém, deveríamos cuidar melhor da nossa lista de convidados. - “Que lista de convidados?” Pergunta o senhor Lacan. Bem, na verdade, falo de várias listas. A lista de convidados para as reuniões da ONU, lista de convidados para as conversas mentais que temos antes de dormir, listas para aniversários, casamentos, conversas em mesa de bar e camas de motel. Também falo das listas de convidados para reuniões de família e direção de trabalho. Não falo “direção” no sentido de cargos profissionais, falo sobre direcionamento de sentido do que fazemos. Também não falo do “cuidar” só no sentido de tomar conta ou conduzir um tratamento de saúde. Falo de direção e cuidado como pensamento, reflexão. Sempre que vamos pensar sobre alguém ou sobre alguma coisa, ou simplesmente pensar, devemos fazer uma boa lista de convidados que saibam brincar. Do contrário, podemos estar diante do mais extraordinário nascimento de estrelas, que não conseguiremos ver nada mais que chuviscos a perturbarem nossos olhos. Poderemos estar diante de naves extraterrestres pousando na lua, mensagens em três diferentes línguas, amores capazes de fazer cantar. Gritarão tristezas e alegrias e todos os tipos de coisas misteriosas e inexplicáveis, e tudo que teremos ainda serão belos cintos de couro para combinarem com nossas calças.


O melhor amigo do Calvin é um tigre, o Haroldo. O melhor amigo do Charlie Brown é um cachorro, o Snoopy. O Linus também é amigo do Charlie e do Snoopy. Aliás, quem não é amigo do Snoopy? Eu gosto de todos eles e tenho todos na cabeceira e na bolsa. Gosto de convidá-los para minha casa. Deixo meus convidados virem como quiserem, de calças, vestidos, descalços, pintados, com perucas... Não pré-combinamos isso, porque isso não é o principal. Exceto, é claro, quando é festa do chapéu, do pijama ou da gravata maluca. Acho mesmo que precisamos falar mais sobre Paty Pimentinha e Mafalda. Acredito (e isso apazigua meu coração) que, se elas estivessem naquela reunião de trabalho, teriam topado o tempo de brincadeira. Afinal, trabalhamos duro e... Estamos fazendo isso e... Quer dizer, pra quê mesmo isso tudo? Uma vez, o Charlie perguntou pro Linus porque eles precisavam estudar. O Linus disse que era para que tirassem boas notas. E para que boas notas? Bom, para que consigamos nos formar e conseguir um emprego que nos pague bem e assim consigamos matricular nossos filhos em boas escolas para que... Bem, para que eles tirem boas notas!
Você pode estar se perguntando se seria mesmo uma boa dar ouvidos a um menino que casualmente troca ideias com um cobertor azul. Ou talvez se pergunte, por que questionar tanto um simples amigo oculto? E o que posso lhe dizer é que não questiono o amigo oculto. O que questiono é o oculto. A falta dele quando deveria haver, e o pseudo-oculto que se desvela em um acordo coletivo onde mantemos a mediocridade esvaziada de todo dia. Esvaziada de desejo, de sentido, de autenticidade. Lembro-me de Antunes Filho e o convido também, junto a Calvin e companhia, para brincar na nossa festa. Em uma de suas declarações, Antunes diz:- “Está tudo se esfarelando. A fé no outro se esfarela. Você não pode contar com ninguém, você fica cada vez mais solitário e contando com os eletrodomésticos.” Pois é disso que se trata esse “amigo oculto da depressão”: a dureza com que levamos tudo só nos permite brincar brincadeiras didáticas que corroboram com nossas vidas de realidades vazias de sentido, que precisam a cada fim de ano serem apertadas com belos cintos. Brincadeiras didáticas são chatas. É quase como o que acontecia nas antigas aulas de informática das escolas nos anos 90. Você ia para a aula todo animado, porque sempre no final a professora dava 30 minutos de tempo livre no pc! Tempo livre no pc, que demais! Vamos jogar! Então, você e sua dupla abriam os jogos que tinham instalados e... eram to-dos didáticos. Dinossauros são legais quando são dinossauros e não quando ensinam a gente a resolver funções matemáticas. O último ano que passou não foi bom para mim. E isso é algo que eu espero compartilhar com um amigo. E mesmo que ele não me entenda ou fale merdas e me dê conselhos estúpidos, ou simplesmente não faça nada além de ser meu amigo, ok. Passaremos madrugadas sozinhos na cozinha comendo rabanadas. Também encheremos nossas caras quando der na telha, teremos dores de cabeça, sentiremos raiva e medo e também acharemos estranhas e desconfortáveis mais da metade das coisas que acontecem no mundo. Os sorridentes entusiastas de Recursos Humanos que me desculpem, mas é muito solitária essa vida de polir cintos e dentes. Cansei de falar sobre produção, precisamos falar sobre Calvin, Mafalda e Snoopy também.
(Fonte: Obvious - AQUI).